Munique, no fim de 1918, era uma cidade que parecia ter acordado de uma febre e descoberto que a cama estava vazia. O Império Alemão acabara, a guerra fora perdida, soldados voltavam sem saber ao certo para onde voltar, e as ruas estavam cheias de discursos, ressentimentos e promessas de salvação. Foi nesse cenário que chegou Alfred Rosenberg, um jovem de 25 anos formado em arquitetura, vindo de uma Rússia sacudida pela revolução.
Há um detalhe pouco lembrado nessa história. Rosenberg entrou no movimento que daria origem ao Partido Nazista antes de Adolf Hitler. Em janeiro de 1919, já frequentava o pequeno Partido dos Trabalhadores Alemães, o DAP, fundado em Munique por Anton Drexler e Karl Harrer. Hitler só se aproximaria daquele grupo meses depois. Rosenberg, por sua vez, já levava consigo uma visão pronta do inimigo.
Nascido em 12 de janeiro de 1893, em Reval, atual Tallinn, na Estônia, Rosenberg pertencia ao ambiente dos alemães do Báltico. Estudou arquitetura em Riga e concluiu a formação em Moscou. A Revolução Russa de 1917 não o transformou em democrata nem em observador prudente. Ao contrário, reforçou seu anticomunismo e um antissemitismo que ele já carregava. Quando veio para a Alemanha, apresentou o bolchevismo e os judeus como partes de uma mesma conspiração. Era uma falsidade, mas uma falsidade com a aparência de explicação total, dessas que oferecem uma resposta simples para todos os medos.
Rosenberg conheceu Dietrich Eckart, poeta, jornalista e agitador nacionalista que circulava entre grupos da extrema direita bávara. Eckart percebeu utilidade naquele estrangeiro magro, reservado e cheio de certezas. Abriu-lhe espaço na revista Auf gut Deutsch e o aproximou do círculo político em que Hitler começava a aparecer. Ali, Rosenberg não precisava gritar. Escrevia. Organizava preconceitos antigos, misturava teorias raciais, anticomunismo, nacionalismo e fantasias conspiratórias, depois entregava tudo em páginas que pareciam possuir método.
É assim que uma ideia criminosa começa a vestir paletó.
Em 1919, Rosenberg publicou textos antissemitas como O Rastro dos Judeus através dos Tempos e Imoralidade no Talmude. Também ajudou a divulgar os chamados Protocolos dos Sábios de Sião, uma falsificação criada na Rússia czarista e apresentada como prova de uma conspiração judaica mundial. O documento era fraudulento, mas sua utilidade política era enorme.
Quando Hitler entrou no DAP, encontrou mais do que uma reunião de descontentes. Encontrou homens que já trabalhavam para converter frustração em doutrina. Rosenberg foi um deles. Por intermédio dele e de Eckart, Hitler teve contato com obras racistas e antissemitas que ajudaram a dar forma ao vocabulário do nascente movimento. A relação entre os dois não era a de mestre e aluno em sentido simples. Hitler possuía o talento da voz, da encenação e da multidão. Rosenberg oferecia uma biblioteca de ódios, argumentos falsamente eruditos e uma linguagem que pretendia transformar preconceito em ciência.
No dia 24 de fevereiro de 1920, em uma reunião no Hofbräuhaus de Munique, o DAP passou a chamar-se Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, o NSDAP. O pequeno círculo das cervejarias começava a adquirir programa, símbolos e disciplina. Rosenberg permaneceu perto do núcleo, escreveu para o Völkischer Beobachter e, em 1923, tornou-se seu editor principal. Em 1930, publicou O Mito do Século XX, obra que colocava a história como uma luta entre uma suposta raça ariana e os judeus. O livro alcançou cerca de um milhão de exemplares até os últimos anos da guerra.
A Segunda Guerra Mundial ainda estava distante em 1919, mas alguns de seus alicerces ideológicos já eram assentados naquela Munique inquieta. A invasão da União Soviética, iniciada em 22 de junho de 1941, seria apresentada pelo regime como guerra militar, racial e ideológica. Um mês depois, Rosenberg recebeu o Ministério dos Territórios Orientais Ocupados. Aquele arquiteto que não construíra edifícios passou a administrar territórios onde populações inteiras seriam exploradas, deportadas, deixadas à fome e assassinadas.
É tentador imaginar que os grandes crimes começam com grandes ruídos. Às vezes começam numa sala pequena, com cadeiras ordinárias, fumaça de cigarro e homens convencidos de que descobriram a chave do mundo. Rosenberg não criou sozinho o racismo nazista, nem controlou cada etapa de sua aplicação. Mas ajudou a lhe dar uma estrutura, um vocabulário e uma falsa dignidade intelectual.
Em Nuremberg, depois da guerra, foi julgado por conspiração, crimes contra a paz, crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Condenado em todas as acusações, foi enforcado em 16 de outubro de 1946.
O fato menos conhecido continua sendo o mais perturbador. Antes dos uniformes, dos campos e das colunas de tanques, houve palavras. Houve homens que pegaram mentiras antigas e as organizaram como projeto político. Em Munique, em 1919, Alfred Rosenberg começou a desenhar esse projeto. A planta estava no papel muito antes de a Europa ver o edifício em chamas.
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