Em 22 de novembro de 1942, a jovem polonesa Jadwiga Dzido entrou na enfermaria do campo de concentração de Ravensbrück com as pernas saudáveis. Saiu de lá marcada por uma operação que jamais havia solicitado. Quatro anos depois, diante do Tribunal dos Médicos em Nuremberg, levantou a saia e mostrou aos juízes as cicatrizes. Um perito explicou o dano. O que parecia uma lesão de guerra não havia sido causado no front. Fora produzido deliberadamente por médicos alemães.
Ravensbrück, instalado em 1939 nas proximidades de Fürstenberg, tornou-se o principal campo de concentração feminino do Reich. Ali, entre o verão de 1942 e o verão de 1943, médicos ligados à SS realizaram experiências em prisioneiras políticas, sobretudo polonesas deportadas de Varsóvia e Lublin. Os documentos do julgamento identificam 74 mulheres escolhidas para as operações. Eram jovens, saudáveis e fisicamente aptas. A mais nova tinha 16 anos. Muitas eram estudantes.
A parte mais conhecida do programa envolveu feridas infectadas para testar sulfonamidas. Mas havia outra série, menos lembrada e igualmente reveladora. Eram as chamadas operações assépticas, destinadas a estudar regeneração de músculos e nervos, retirada de ossos e transplantes. Nesse grupo, o problema médico não existia antes da intervenção. Ele era criado no corpo de uma pessoa saudável.
O médico Fritz Fischer descreveu o procedimento em depoimento. Na série de regeneração muscular, realizava-se uma incisão na parte externa da coxa. Um fragmento do músculo era removido, a ferida fechada e a perna imobilizada com gesso. Cerca de uma semana depois, a região era aberta novamente. Os médicos retiravam tecido ao redor da área operada para observar como o organismo reagia. Algumas mulheres passaram por sucessivas intervenções no mesmo ponto. Segundo testemunhos apresentados em Nuremberg, as pernas ficavam progressivamente mais finas e fracas.
Em outras prisioneiras, os experimentadores cortaram nervos ou retiraram fragmentos da tíbia. Herta Oberheuser declarou que auxiliou Ludwig Stumpfegger em operações de retirada e transplante de partes do osso e estimou que entre 15 e 20 pessoas foram utilizadas nessa série. A pesquisa pretendia responder a questões de cirurgia reconstrutiva, especialmente relevantes para soldados mutilados na Segunda Guerra Mundial. A justificativa militar, porém, não alterava o fato central. As mulheres não eram pacientes e não haviam consentido. Seus membros saudáveis foram transformados em material experimental.
A cadeia de responsabilidade começava acima da enfermaria. Karl Gebhardt, médico de Heinrich Himmler e chefe da clínica de Hohenlychen, dirigia o programa. Fischer era seu assistente. Stumpfegger ficou associado aos testes de transplante ósseo. Oberheuser examinava as mulheres selecionadas, auxiliava nas cirurgias e acompanhava parte do tratamento posterior. A administração do campo fornecia as prisioneiras conforme o número solicitado pelos médicos.
A testemunha Zofia Maczka, médica polonesa presa em Ravensbrück, descreveu condições que desmentiam a linguagem de pesquisa controlada usada pela defesa. As operações eram feitas nas pernas. Depois, muitas vítimas permaneciam em quartos precários, com assistência insuficiente e curativos realizados em condições inadequadas. Quando algumas mulheres resistiram, operações posteriores foram conduzidas no chamado bunker, a prisão interna do campo.
Há um detalhe pouco conhecido que dá a essa história uma força documental rara. As próprias prisioneiras conseguiram produzir fotografias clandestinas das pernas mutiladas. Uma delas mostra Bogumiła Jasiuk, submetida a duas operações em novembro e dezembro de 1942, com quatro cortes nos músculos da coxa. As imagens sobreviveram ao campo e impediram que o crime fosse reduzido a uma disputa abstrata entre acusação e defesa.
As vítimas passaram a ser chamadas de “coelhas”, numa referência ao modo como eram tratadas como animais de laboratório e, segundo relatos, à dificuldade com que algumas se deslocavam após as cirurgias. O apelido também revela a lógica do sistema. Em Ravensbrück, mulheres presas por resistência à ocupação alemã deixavam de ser vistas como indivíduos. Tornavam-se casos numerados, selecionados para responder perguntas formuladas por cirurgiões da SS.
No Tribunal dos Médicos, aberto em dezembro de 1946, sobreviventes polonesas apresentaram cicatrizes, fotografias e depoimentos. A defesa tentou sustentar que as operações buscavam aperfeiçoar técnicas para tratar feridos de guerra e que algumas prisioneiras condenadas à morte teriam recebido uma possibilidade de sobrevivência. O tribunal rejeitou a ideia de que uma sentença imposta pelo próprio regime pudesse substituir consentimento voluntário.
Gebhardt, Fischer e Oberheuser foram responsabilizados por sua participação nos experimentos de Ravensbrück. Mais do que uma sucessão de atos individuais, o processo mostrou como a medicina alemã podia funcionar integrada à hierarquia da SS, ao sistema concentracionário e às necessidades militares do Reich.
Quando Jadwiga Dzido exibiu a perna em Nuremberg, o corpo de uma sobrevivente tornou-se documento. A cicatriz dizia o que formulários e pareceres tentavam esconder. Em Ravensbrück, os médicos não procuraram curar uma lesão. Primeiro criaram a lesão. Depois observaram o sofrimento como se estivessem diante de um problema técnico.
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