Em 16 de outubro de 1943, no Golfo de Omã, um submarino alemão desapareceu sob as águas em poucos minutos. A bordo estavam 53 homens. Apenas um voltou à superfície com vida. Seu nome era Günter Schmidt, marinheiro especialista em torpedos, nascido em 23 de novembro de 1922. Tinha 20 anos quando protagonizou um dos episódios de sobrevivência mais extremos e menos conhecidos da guerra submarina.
O U-533 integrava o Grupo Monsun, força enviada pela Kriegsmarine ao oceano Índico para atacar a navegação aliada e ampliar a cooperação naval com o Japão. O submarino deixara Lorient, na França ocupada, em julho de 1943. A viagem exigia contornar o cabo da Boa Esperança, cruzar águas patrulhadas pelos Aliados e depender de encontros no mar para receber combustível, água e mantimentos.
A missão começara sob suspeita de sabotagem. Em uma tentativa anterior de partida, fragmentos de vidro foram encontrados na graxa do suporte do periscópio e uma tampa do escapamento dos motores diesel não era estanque. Depois dos reparos, o U-533 seguiu sob o comando do Kapitänleutnant Helmut Hennig. Durante mais de cem dias, atravessou o Atlântico e o Índico até alcançar a entrada do Golfo Pérsico.
Na tarde de 16 de outubro, o submarino navegava na superfície quando foi localizado por um Bristol Blenheim V, também conhecido como Bisley, do Esquadrão 244 da Royal Air Force. O avião era pilotado pelo sargento Lewis William Chapman. A aproximação surpreendeu os vigias. O U-533 iniciou um mergulho de emergência, mas o ataque já estava em curso.
Chapman lançou quatro cargas de profundidade. O submarino ainda não havia desaparecido completamente quando as explosões atingiram a água ao seu redor. Segundo o relatório britânico elaborado após o interrogatório do sobrevivente, uma detonação ocorreu quando o U-533 estava a aproximadamente 25 metros. As luzes se apagaram. Os lemes de profundidade deixaram de responder. Bombas de porão foram acionadas enquanto o casco continuava descendo.
Schmidt estava na torre de comando com o primeiro oficial, Oberleutnant zur See Paschen. Quando o submarino chegou a cerca de 60 metros, outra explosão sacudiu o casco. A água subiu pelo compartimento inferior até alcançar o pescoço dos dois homens. O comandante ordenou que os tanques fossem soprados, numa tentativa desesperada de recuperar a flutuabilidade.
Foi então que aconteceu o improvável.
Paschen conseguiu destravar a escotilha da torre. A pressão acumulada lançou os dois homens para fora e os projetou em direção à superfície. Nenhum usava equipamento de escape. Schmidt perdeu a consciência durante a subida. Quando recobrou os sentidos, já estava sobre a água. Ao seu lado, Paschen permanecia inconsciente.
Durante aproximadamente uma hora, Schmidt sustentou o oficial. A exaustão o obrigou a soltá-lo. Paschen desapareceu no mar. A partir daquele momento, o jovem marinheiro estava sozinho.
Schmidt retirou as roupas pesadas e começou a nadar na direção em que acreditava estar a costa. O próprio depoimento desmonta qualquer imagem de um atleta preparado. Ele reconheceu que não era um bom nadador e que quase não conseguia acreditar no que fizera. A água estava quente. Peixes surgiam ao redor, alimentando o temor de que tubarões se aproximassem.
A noite caiu. Não havia colete salva-vidas, bote, água potável ou alimento. Havia somente o movimento repetido dos braços e a necessidade de permanecer consciente. Em determinado momento, a luz da Lua permitiu que Schmidt visse o contorno da costa. Aquela imagem lhe deu uma referência e renovou sua disposição para continuar.
Ele permaneceu no mar por cerca de 28 horas.
O relatório de interrogatório britânico afirma que Schmidt alcançou Khor Fakkan na noite seguinte. Relatos posteriores registram que ele foi recolhido nas proximidades pelo navio auxiliar de patrulha HMIS Hiravati. As versões convergem no ponto essencial: depois de escapar de um submarino condenado, ele sobreviveu mais de um dia sozinho nas águas quentes do Golfo de Omã.
Schmidt tornou-se prisioneiro de guerra. Seus interrogadores registraram detalhes técnicos do U-533, da viagem desde Lorient, dos reabastecimentos no Índico e dos planos alemães para operar a partir de Penang, na Malásia ocupada pelos japoneses.
O ataque matou Helmut Hennig, Paschen e os outros 50 tripulantes. O piloto Lewis Chapman recebeu a Distinguished Flying Medal. Ele próprio morreria em julho de 1944, quando viajava como passageiro em um Dakota que caiu perto de Salalah, no atual Omã.
Décadas depois, mergulhadores localizaram os destroços do U-533 a cerca de 108 metros de profundidade, diante de Fujairah. O casco ainda guardava a marca da explosão próxima à popa. A descoberta confirmou a violência do ataque, mas não explica inteiramente como um único homem conseguiu sair daquele túmulo de aço.
O dado mais extraordinário permanece no depoimento do próprio sobrevivente. Günter Schmidt não se considerava um grande nadador. Mesmo assim, atravessou 28 horas de escuridão, calor, medo e exaustão. Entre 53 homens, foi o único a voltar do fundo.
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