196 Soldados, Bicicletas e Francos: A Carga Humana da LCI-502 às Vésperas do Dia D

Na manhã de sábado, 3 de junho de 1944, a guerra entrou a bordo da USS LCI(L)-502 sem disparar um único tiro. A embarcação americana deixou seu ponto habitual e aproximou-se do Royal Pier, em Southampton. Ali esperavam 196 oficiais e soldados da Durham Light Infantry, pertencentes à 151ª Brigada da 50ª Divisão de Infantaria Northumbrian. Eles subiram pelas passarelas carregando armas, mochilas, equipamentos, bicicletas dobráveis e maços de dinheiro francês recém-impresso.

A moeda foi o detalhe que eliminou as últimas dúvidas. Durante meses, ordens, exercícios e deslocamentos haviam sido tratados sob rigoroso sigilo. Agora aqueles homens recebiam francos para usar em território francês. A invasão já não era um rumor contado nos alojamentos. Estava impressa em papel e guardada nos bolsos dos soldados.

A LCI-502 não era um grande navio de transporte. As Landing Craft Infantry haviam sido concebidas para levar cerca de duzentos homens diretamente até uma praia hostil. Tinham casco de aço, fundo adequado ao encalhe e rampas laterais pelas quais a infantaria desembarcaria. Com aproximadamente 48 metros de comprimento e pouco mais de sete metros de largura, ofereciam pouco conforto. Quando os 196 homens da Durham Light Infantry entraram, a embarcação ficou praticamente no limite.

John P. Cummer, marinheiro da LCI-502, recordaria mais tarde a aparência incomum dos britânicos. Com bicicletas dobradas e objetos pendurados ao corpo, pareciam vendedores ambulantes, não soldados preparados para uma das maiores operações militares da história. A comparação tinha algo de cômico, mas escondia uma verdade severa. Aqueles homens pertenciam a uma formação experiente, destinada a entrar na França pela Gold Beach.

As bicicletas não eram um adereço extravagante. Unidades britânicas receberam bicicletas para acelerar deslocamentos depois da saída da praia. O oficial Herbert John Mogg, do 9º Batalhão da Durham Light Infantry, recordou que sua companhia recebeu esse equipamento antes da invasão. Na prática, porém, as condições da Normandia e o peso do combate tornariam muitas delas pouco úteis. Antes do primeiro tiro, eram instrumentos de mobilidade. Depois do desembarque, algumas seriam abandonadas.

A presença daqueles homens transformou a rotina da tripulação americana. A LCI-502 já era estreita para seus próprios marinheiros. Agora corredores, compartimentos e áreas de circulação estavam ocupados por soldados, armas e material de campanha. Cada movimento exigia cuidado. A missão daquele pequeno navio era transportar uma unidade de combate intacta através do Canal da Mancha e colocá-la em terra diante das defesas alemãs.

Após o embarque, a LCI-502 regressou aos New Docks, onde se reuniu às demais embarcações do Grupo 31. O domingo, 4 de junho, foi dedicado aos preparativos finais. Um grupo da tripulação participou de um serviço religioso em terra. Os soldados britânicos receberam permissão para desembarcar por algum tempo e fazer exercícios depois das longas horas passadas dentro da embarcação.

Às 20h30, soou o alarme de ataque aéreo. A tripulação correu para os postos de combate e permaneceu junto aos canhões durante cerca de vinte minutos. Nenhuma ação decisiva ocorreu, mas o episódio lembrava que Southampton continuava ao alcance da Luftwaffe. Mesmo antes de cruzar o canal, homens e navios já estavam expostos.

A operação deveria começar em 5 de junho, mas o mau tempo obrigou o comando aliado a adiar a partida principal. O Grupo 31, do qual a LCI-502 fazia parte, não participou da saída abortada. Às 14 horas daquele dia, a tripulação reuniu-se para ouvir a mensagem do general Dwight D. Eisenhower à Força Expedicionária Aliada. O comandante anunciava uma grande cruzada militar. Para os homens comprimidos na LCI, aquelas palavras significavam algo imediato: a próxima costa seria a França ocupada.

Durante o dia, Southampton foi esvaziando. Navios e embarcações de desembarque soltavam as amarras e desapareciam em direção ao canal. O porto, antes congestionado, adquiriu uma aparência estranhamente vazia. Finalmente, às 20 horas, o Grupo 31 começou a partir. A LCI-502 largou às 20h12 e tomou posição atrás da LCI-512.

Próximo ao farol de Needles, na extremidade ocidental da ilha de Wight, o destróier de escolta britânico HMS Albrighton encontrou a formação. A partir daquele ponto, as embarcações assumiram a organização prevista para a travessia e seguiram rumo à costa francesa.

Aquela carga humana reunia quatro nações em um espaço reduzido. A tripulação era americana. Os passageiros eram britânicos. O dinheiro era francês. O destino estava protegido por fortificações alemãs. As bicicletas sugeriam movimento rápido, enquanto o espaço apertado obrigava todos a esperar quase imóveis.

Na escuridão de 5 de junho, a LCI-502 avançou para o mar aberto levando 196 homens, suas armas e os pequenos sinais da vida que esperavam encontrar do outro lado. Os francos indicavam que cidades seriam alcançadas. As bicicletas mostravam que o avanço deveria continuar além da praia. Na manhã seguinte, aqueles homens desceriam as rampas em Gold Beach e entrariam definitivamente na batalha da Normandia.


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