Em 15 de fevereiro de 1944, a revista alemã Der Adler colocou o Henschel Hs 129 diante de seus leitores como uma arma precisa, veloz e capaz de romper concentrações inimigas. Na página dedicada ao avião, quatro aparelhos aparecem em formação sobre uma paisagem de inverno. A legenda apresenta o bimotor como parceiro indispensável das tropas terrestres. Era a imagem que o regime nazista desejava transmitir. Mas, por trás daquela fotografia, existia uma história muito mais dura.
O Hs 129 havia sido criado para uma missão específica. Voar baixo, atravessar o fogo disparado do solo e atingir tanques, caminhões, peças de artilharia e colunas de infantaria. Em 1937, o Ministério da Aeronáutica do Reich solicitou um avião especializado em apoio aproximado, protegido contra armas leves e capaz de operar perto da linha de frente. A Henschel respondeu com uma aeronave pequena, bimotora e monoposto.
A principal defesa do piloto era a própria estrutura. A cabine ficava cercada por placas de blindagem de diferentes espessuras, formando uma espécie de cápsula de aço. O para-brisa também era reforçado. A proteção, porém, tinha um preço. O espaço interno era tão reduzido que alguns instrumentos precisaram ser instalados do lado de fora, nas carenagens internas dos motores, onde podiam ser observados pelo piloto através das janelas.
O primeiro protótipo voou em 1939, mas os testes revelaram problemas graves. Os motores alemães Argus As 410 eram fracos para o peso da aeronave. A visibilidade era limitada e os comandos exigiam esforço. A solução veio depois da ocupação da França, quando o projeto foi adaptado para utilizar motores radiais franceses Gnome-Rhône 14M. A versão Hs 129 B ganhou potência, embora nunca tenha deixado de ser considerada submotorizada.
As primeiras unidades operacionais chegaram à Luftwaffe no início de 1942. Em maio, aparelhos da 4./Schlachtgeschwader 1 foram enviados ao Front Oriental. Ali, o avião encontrou o cenário para o qual havia sido concebido. Grandes extensões de terreno, movimentos de tropas mecanizadas e combates em que uma coluna blindada podia alterar a situação de uma divisão inteira.
O armamento básico incluía duas metralhadoras MG 17 de 7,92 milímetros e dois canhões MG 151 de 20 milímetros. Configurações adicionais permitiam transportar bombas ou instalar um canhão MK 101 de 30 milímetros sob a fuselagem. Mais tarde, surgiu o MK 103, também de 30 milímetros, com maior cadência de tiro. Na fase final da guerra, um número reduzido de Hs 129 B-3 recebeu o enorme canhão BK 7,5 de 75 milímetros.
A missão não consistia apenas em destruir tanques. O Hs 129 era empregado contra veículos de transporte, posições de artilharia, concentrações de tropas e unidades soviéticas que haviam atravessado as linhas alemãs. O piloto precisava localizar o alvo, descer a baixa altitude, alinhar a aeronave e disparar em poucos segundos. Não havia navegador, operador de rádio ou artilheiro para dividir a pressão. Tudo dependia de um único homem dentro da cabine blindada.
Essa forma de combate colocava o avião ao alcance de metralhadoras, canhões antiaéreos e até armas de infantaria. Sua velocidade modesta também o tornava vulnerável aos caças inimigos. Quando a Luftwaffe não conseguia oferecer cobertura, as perdas cresciam e as operações podiam ser interrompidas.
Um registro interceptado e traduzido pelos britânicos mostra o problema com clareza. No fim de abril de 1943, durante os últimos combates na Tunísia, uma missão de Hs 129 foi abandonada por causa do intenso fogo antiaéreo aliado. Um aparelho, de número de fabricação 0351, foi atingido, fez um pouso forçado e acabou considerado perda total. O documento desmonta a imagem de invulnerabilidade cultivada pela propaganda.
No Front Oriental, o Hs 129 participou das batalhas de Kharkov, Stalingrado, Kursk e das longas retiradas alemãs. Suas unidades eram deslocadas para setores ameaçados por avanços blindados. Os relatórios alemães registravam numerosos tanques destruídos, mas esses números precisam ser tratados com cautela. Em combate, fumaça, poeira e explosões faziam um veículo atingido parecer destruído, quando muitas vezes ele podia ser recuperado.
Cerca de 865 exemplares foram construídos. A produção terminou em 1944, quando a indústria alemã passou a concentrar recursos em caças destinados à defesa do Reich. Mesmo assim, o Hs 129 continuou aparecendo na linha de frente até os últimos meses da guerra.
A fotografia publicada por Der Adler mostra aviões organizados, prontos e aparentemente dominantes. A documentação operacional revela outra realidade. O Hs 129 podia causar danos sérios a uma coluna terrestre, sobretudo quando encontrava o alvo sem forte proteção aérea. Mas cada ataque exigia que o piloto entrasse no espaço mais perigoso do campo de batalha. Voava baixo, atacava de frente e permanecia por segundos diante de todas as armas que o inimigo conseguia apontar para o céu.
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