Os trinta metros de Osório: o pracinha que voltou para buscar um companheiro em Monte Castelo

Havia um bosque de castanheiros diante dos brasileiros, embora talvez já não fosse correto chamá-lo de bosque. Os troncos estavam partidos, as copas haviam desaparecido e a artilharia dos dois lados reduzira as árvores a pedaços espalhados pela encosta. Era 21 de fevereiro de 1945, nos Apeninos italianos, e a Força Expedicionária Brasileira avançava outra vez contra Monte Castelo.

Os homens caminhavam de tronco em tronco, procurando abrigo onde quase não havia abrigo algum. À frente surgia um trecho de terreno limpo, seguido por uma elevação suave. Para um infante experiente, aquela pequena faixa descoberta dizia muita coisa. Era o lugar perfeito para uma metralhadora alemã.

O comandante do pelotão, Alírio Granja, percebeu o perigo. Chamou o sargento e ordenou que ele contornasse o bosque com seu grupo de combate. O fuzil-metralhadora deveria ser colocado em posição para apoiar a passagem dos demais soldados.

O sargento respondeu e começou a se mover. Bastou que levantasse um pouco o corpo.

A metralhadora alemã já estava apontada para o local. Uma rajada curta atingiu o peito do militar, que caiu quase sobre Granja. Dois esclarecedores ainda tentaram seguir adiante, mas também foram feridos. O avanço parou diante daquela área aberta, varrida pelo fogo inimigo.

Foi nesse instante que apareceu o soldado Osório.

O relato conservado pelo Exército não apresenta seu nome completo. Registra apenas aquilo que o comandante jamais esqueceu. Osório era baixo, troncudo, vinha de uma colônia de pesca e costumava estar alegre e disposto. Talvez tivesse aprendido junto ao mar que certos movimentos precisam ser feitos sem hesitação. Naquela manhã, não houve tempo para discursos, ordens solenes ou fotografias.

Um companheiro estava caído a cerca de trinta metros da posição brasileira.

Trinta metros não parecem uma grande distância. Cabem em uma rua estreita, num pequeno terreno ou entre duas casas de uma cidade pacífica. Sob uma metralhadora, porém, trinta metros podem conter uma vida inteira.

Osório soltou o equipamento. Quanto menos peso carregasse, mais depressa poderia correr. Saiu do abrigo, atravessou o terreno descoberto e alcançou o ferido. Pegou o companheiro pelo braço, ajudou-o a se levantar e começou a voltar.

As balas batiam perto de seus calcanhares.

Não há como saber o que ele pensou durante a corrida. A fonte não registra suas palavras, nem descreve algum medo confessado depois. O que se sabe é que continuou. Trouxe o ferido até a posição brasileira e não sofreu um arranhão.

Naquele ponto da batalha, os homens não enxergavam o conjunto da operação. Não podiam observar os mapas dos quartéis-generais nem acompanhar a movimentação da 10ª Divisão de Montanha dos Estados Unidos nas elevações vizinhas. Conheciam apenas o pedaço de chão à sua frente, o estampido das armas e os rostos de quem avançava ao lado.

O ataque decisivo contra Monte Castelo começara às 5h30. A posição havia resistido a tentativas anteriores realizadas desde novembro de 1944. O inverno trouxera neve, lama, temperaturas abaixo de zero e meses de vigilância sob os morteiros alemães. Em fevereiro, com a melhoria das condições e a execução do Plano Encore, brasileiros e norte-americanos voltaram a atacar as alturas que protegiam o caminho em direção a Bolonha.

O pelotão de Alírio Granja integrava o 1º Regimento de Infantaria, o Regimento Sampaio. Diante da metralhadora que bloqueava seu avanço, o oficial pediu apoio de artilharia pelo pequeno rádio conhecido como hand talkie. O observador avançado Jair Lontra Sampaio também estava sob fogo e não conseguia alcançar um local de onde pudesse enxergar a posição inimiga.

Granja tornou-se então os olhos do observador. Informava pelo rádio onde cada tiro caía, mais à direita, mais à esquerda, até que as granadas atingiram o ponto ocupado pelos alemães. A artilharia abriu fogo concentrado, inclusive com projéteis de fósforo branco. A resistência foi finalmente neutralizada, permitindo que os soldados retomassem o movimento.

Horas depois, Monte Castelo estava nas mãos da FEB. Às 17h30, os brasileiros haviam alcançado o objetivo que durante meses parecera quase inacessível. A conquista foi importante para o avanço aliado pelos Apeninos e tornou-se uma das ações mais conhecidas da participação brasileira na Segunda Guerra Mundial.

No entanto, a grande batalha também foi feita de episódios pequenos, quase invisíveis quando observados nos mapas. Um sargento que se levantou alguns centímetros e morreu. Dois esclarecedores feridos. Um rádio passando correções para a artilharia. Um homem caído no terreno descoberto.

E Osório.

Alírio Granja recordaria que existia entre os soldados do pelotão um compromisso simples. Ninguém seria abandonado. Os homens queriam participar das patrulhas e criavam vínculos que iam além da disciplina militar. Na hora do perigo, aquele companheirismo deixava de ser uma ideia e se transformava em movimento.

Osório correu porque um dos seus estava lá fora.

Não recebeu, naquele depoimento, um sobrenome, uma biografia completa ou uma descrição de sua vida depois da guerra. Ficou apenas o gesto. Talvez seja justamente por isso que sua história impressione tanto. Entre milhares de disparos, ordens e explosões, um soldado enxergou outro homem no chão e decidiu que os trinta metros entre eles precisavam ser vencidos.


Descubra mais sobre Portal Segunda Guerra Brasil

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta