Lee-Enfield: Como o Treinamento Britânico Transformou um Fuzil de Ferrolho em uma Arma de Fogo Rápido

Na manhã de 10 de maio de 1940, quando as forças alemãs avançaram sobre a Europa Ocidental, o soldado britânico entrou em combate carregando uma arma cujo desenho básico vinha do fim do século XIX. O Lee-Enfield parecia pertencer a uma época anterior aos tanques, aos bombardeiros de mergulho e às metralhadoras de alta cadência. No entanto, nas mãos de um atirador bem treinado, aquele fuzil de ferrolho podia produzir uma sequência de disparos tão rápida que, em determinadas circunstâncias, se aproximava do volume de fogo de uma arma semiautomática.

A afirmação de que soldados britânicos alcançavam 30 tiros visados por minuto precisa ser entendida com precisão. Não era a média de todo recruta nem uma exigência comum em combate. Tratava-se do limite superior atingido por atiradores excepcionalmente treinados, em condições favoráveis. A Royal Armouries situa a capacidade de homens bem adestrados entre 20 e 30 disparos em 60 segundos, enquanto seus dados técnicos indicam uma cadência prática de aproximadamente 25 tiros por minuto. O número 30, portanto, não é invenção, mas também não pode ser tratado como rotina universal.

O segredo começava no projeto. Adotado pelo Exército britânico em 1895, o Lee-Enfield recebeu em 1903 sua forma mais conhecida, o Short Magazine Lee-Enfield, ou SMLE. Seu carregador comportava dez cartuchos, o dobro da capacidade dos cinco cartuchos encontrados em muitos fuzis militares contemporâneos. A alimentação era feita por dois pentes de cinco munições, inseridos pela parte superior da arma. Isso permitia recarregar rapidamente sem retirar o carregador.

O ferrolho também fazia diferença. No sistema Lee, o percussor era armado quando o atirador empurrava o ferrolho para a frente. Esse mecanismo aproveitava melhor a força da mão e do braço. A alavanca ficava próxima ao gatilho, reduzindo o deslocamento necessário entre um disparo e outro. O resultado era uma ação curta, suave e veloz. O artigo da revista The Armourer descreve essa sensação de maneira reveladora: depois de alguma adaptação, o mecanismo parecia completar o movimento quase sozinho.

Ainda assim, nenhuma característica mecânica explicaria os 30 disparos sem a disciplina imposta pelo treinamento britânico. Antes da Primeira Guerra Mundial, os regulamentos de tiro já submetiam os soldados a exercícios cronometrados. A famosa prática que mais tarde seria chamada de Mad Minute exigia disparos rápidos contra um alvo a 300 jardas. O padrão regulamentar era de 15 tiros em um minuto, com recarga durante o exercício. Os melhores atiradores ultrapassavam esse número, mas o objetivo central não era produzir ruído. Era acertar.

O método mais conhecido consistia em manter o fuzil apoiado no ombro, operar o ferrolho com o polegar e o indicador da mão direita e acionar o gatilho com o dedo médio. Essa técnica evitava que o atirador retirasse completamente a mão da posição de tiro. Exigia coordenação, força, familiaridade com o recuo e muitas horas de repetição. O Lee-Enfield oferecia a possibilidade mecânica. O sistema de instrução transformava essa possibilidade em capacidade militar.

Quando a Segunda Guerra Mundial começou, em setembro de 1939, o SMLE No. 1 Mk III e sua versão simplificada Mk III* continuavam presentes em grandes quantidades. O No. 4 Mk I, aprovado para serviço em novembro daquele ano, tinha corpo e cano mais pesados e uma mira traseira de abertura. As dificuldades para instalar novas linhas de produção retardaram sua distribuição em grande escala até 1942. A partir daí, tornou-se o principal fuzil da infantaria britânica e canadense, enquanto outras forças da Commonwealth, especialmente a Austrália, continuaram empregando o modelo anterior.

Na retirada para Dunquerque, nas campanhas do Norte da África, na Itália, na Birmânia e no avanço pelo noroeste europeu, a velocidade de tiro não eliminou as limitações de um fuzil de repetição manual. Um homem sob fogo, cansado, com as mãos frias ou sujas, não reproduzia necessariamente o desempenho obtido no campo de treinamento. A fumaça, o terreno e o medo reduziam a cadência e a precisão. Além disso, a infantaria britânica dependia do fuzil-metralhador Bren para fornecer o fogo sustentado da seção.

A importância do Lee-Enfield estava justamente em complementar esse sistema. Cada soldado carregava uma arma robusta, precisa e dotada de dez cartuchos prontos para uso. Em uma emboscada, numa defesa curta ou durante uma retirada, vários homens disparando com rapidez podiam criar uma concentração repentina de fogo. Não era uma metralhadora, mas podia produzir segundos decisivos.

Há algo revelador nessa história. A eficiência do Lee-Enfield não nasceu apenas da engenharia de James Paris Lee ou das oficinas de Enfield. Ela surgiu da união entre indústria, doutrina e treinamento. Os 30 tiros visados por minuto representam o extremo de uma habilidade cultivada durante décadas. O que surpreendia o adversário não era somente o fuzil. Era o homem que aprendera a operá-lo até que madeira, aço e movimento parecessem uma única coisa.


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