Rochus Misch deixou o Führerbunker ao amanhecer de 2 de maio de 1945, quando Berlim já não era a capital triunfal prometida pela propaganda nazista. A cidade estava cercada pelo Exército Vermelho, tomada por incêndios, cadáveres, refugiados e soldados sem comando. Sob o jardim da Chancelaria do Reich, o poder de Adolf Hitler havia encolhido a corredores úmidos, telefones e homens esperando um fim que já não podiam controlar.
Misch não era general, ministro ou estrategista. Nascido em 29 de julho de 1917, na Alta Silésia, ingressou na SS em 1937 e foi gravemente ferido durante a invasão da Polônia, em 1939. Depois de se recuperar, foi transferido, em 1940, para o Führerbegleitkommando, unidade encarregada da proteção pessoal de Hitler. Tornou-se guarda-costas, mensageiro e telefonista, permanecendo próximo ao ditador durante quase cinco anos.
Essa proximidade torna sua história incômoda. Ditaduras não funcionam apenas por meio de seus líderes. Dependem de guardas, motoristas, secretárias, operadores e funcionários que cumprem tarefas sem perguntar para que servem. Misch ocupava um posto discreto, mas essencial. No bunker, sua mesa telefônica mantinha comunicações abertas enquanto o regime responsável pela guerra e pelo assassinato de seis milhões de judeus, além de milhões de outras vítimas, chegava ao colapso.
Em 16 de janeiro de 1945, Hitler instalou-se definitivamente no complexo subterrâneo. Nas semanas seguintes, Misch viu oficiais entrarem e saírem, ouviu mensagens desesperadas e acompanhou a transformação daquele abrigo em uma sala de espera da derrota. Em 30 de abril, Hitler e Eva Braun morreram por suicídio. No dia seguinte, os seis filhos de Joseph e Magda Goebbels foram mortos antes que os pais também se suicidassem. Misch afirmou posteriormente que a morte das crianças foi a lembrança mais terrível daqueles dias.
Pouco antes de partir, ele e o mecânico Johannes Hentschel estavam entre os últimos homens no complexo. Misch atravessou os corredores da Chancelaria, saiu por uma janela do edifício Borsig e alcançou a Wilhelmplatz quando a manhã de 2 de maio começava. Seguiu por túneis e ruas destruídas, mas foi capturado por soldados soviéticos nas proximidades da estação Stettiner Bahnhof, atual Nordbahnhof.
A saída do bunker não significou liberdade. Levado para a União Soviética, Misch passou cerca de nove anos em prisões e campos de trabalho. Regressou a Berlim Ocidental no fim de 1953. Nunca foi acusado de crime de guerra. Foi convocado como possível testemunha nos julgamentos de Nuremberg, mas não chegou a depor.
Uma revelação menos conhecida surgiu no pós-guerra. Em entrevistas, Misch insistiu que desconhecia a dimensão do Holocausto e evitou reconhecer responsabilidade moral pelo sistema que servira. Sua filha, Brigitta Jacob-Engelken, relatou que a mãe, Gerda, possuía ascendência judaica, informação que Misch se recusava a aceitar. A contradição é brutal: um homem que protegeu Hitler passou décadas tentando separar sua rotina dos crimes praticados pelo regime.
Misch morreu em Berlim, em 5 de setembro de 2013, aos 96 anos. Foi apresentado como o último sobrevivente do bunker, afirmação posteriormente revista quando Johanna Ruf passou a ser reconhecida como outra testemunha dos espaços subterrâneos da Chancelaria. Ela morreu em 21 de junho de 2023.
Hoje, o local permanece quase invisível no espaço urbano de Berlim, assinalado por um painel informativo instalado em 2006. A discrição evita transformar a área em santuário político. Também oferece uma lição desconfortável: fotografias e testemunhos só possuem valor histórico quando acompanhados de contexto. Rochus Misch saiu do bunker carregando fragmentos do fim do Terceiro Reich. O que nunca carregou plenamente foi o peso moral de ter ajudado, mesmo silenciosamente, a manter aquela máquina funcionando.
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