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O Guarda de Auschwitz que Disse Não se Sentir Criminoso

Posted on 1 de julho de 202625 de junho de 2026 by Ricardo

Em setembro de 1942, um trem atravessou a Europa ocupada levando jovens de origem alemã recrutados na Iugoslávia. Entre eles estava Jakob W., estudante de arquitetura de 19 anos, nascido numa comunidade de suábios do Danúbio próxima de Belgrado. Ele não conhecia o destino quando embarcou em Inđija. Em Viena, o último vagão foi separado. Os passageiros cujos sobrenomes começavam entre as letras S e Z seguiram para Auschwitz. Segundo Jakob, foi assim, por uma divisão alfabética, que sua vida entrou na engrenagem do maior centro de assassinato do Terceiro Reich.

Depois de caminhar da estação até Birkenau, ele teve o cabelo cortado, recebeu vacinação, uma tatuagem com seu tipo sanguíneo e treinamento militar. Três meses mais tarde, já vestia o uniforme da SS e ocupava as torres que cercavam o campo. Sua função declarada era impedir fugas, vigiar grupos de trabalho e ajudar a formar o cordão armado em torno dos trens que chegavam carregados de deportados.

A revelação mais incômoda dessa história não está na descoberta de um documento secreto. Está na clareza tardia de uma confissão. Entrevistado em 2014, aos 91 anos, Jakob rejeitou a velha alegação de que os guardas desconheciam o extermínio. Os trens chegavam. As pessoas desapareciam. Os crematórios trabalhavam. Para ele, ninguém podia dizer que não sabia.

Auschwitz era um complexo formado por campos principais e dezenas de subcampos. Birkenau, construído como extensão do sistema, tornou-se a principal instalação de assassinato em massa do local. Ali, a SS matou judeus deportados de toda a Europa, além de poloneses, Roma, Sinti, prisioneiros de guerra soviéticos e pessoas de outras nacionalidades. Aproximadamente 1,1 milhão de pessoas morreram no complexo, cerca de um milhão delas judias.

Do alto da torre, Jakob observava uma paisagem organizada para parecer administrativa. Havia cercas eletrificadas, refletores, barracões, patrulhas e horários. Havia também os veículos que, segundo ele, levavam homens encarregados de lançar Zyklon B nas câmaras de gás. Certa vez, acompanhando uma equipe de topografia, entrou numa dessas instalações. Décadas depois, ainda se lembrava do concreto, dos tubos externos e do espaço onde centenas de pessoas eram comprimidas antes de morrer.

Em 1944, quando as deportações dos judeus húngaros elevaram brutalmente o ritmo do assassinato, a capacidade dos crematórios foi ultrapassada. Corpos passaram a ser queimados em fossas ao ar livre. Jakob afirmou que podia ver o fogo e sentir o cheiro. A chama, recordou, não se apagava. A frase revela mais do que talvez ele pretendesse. A rotina não escondia o crime. A rotina o tornava suportável para quem participava da guarda.

Ele descreveu turnos de doze horas, o calor, o frio e o tédio. Disse que lia uma Bíblia ou um jornal na torre. À noite, quando estava de folga, podia caminhar até a estação de Auschwitz, frequentar bares, jogar cartas e beber cerveja. No verão de 1943, recebeu a visita do irmão, soldado da Wehrmacht. Os dois, acompanhados por um primo que também servia no campo, circularam pela área e terminaram o dia num bar.

Esse detalhe desfaz a imagem de um universo completamente isolado. O segredo existia como ordem oficial, mas o conhecimento circulava entre soldados, parentes e comunidades. Auschwitz não estava fora da guerra. Era uma instalação protegida por homens, abastecida por ferrovias e integrada a uma sociedade capaz de conviver com a fumaça.

Jakob sustentou que fora recrutado à força. A incorporação de alemães étnicos da Iugoslávia à Waffen SS ocorreu num território ocupado, onde a pressão e o recrutamento compulsório tiveram papel decisivo. Ele também afirmou ter pedido transferência para uma unidade médica no front e ter sido ameaçado de prisão. Não apresentou prova escrita desse pedido.

Em janeiro de 1945, com o Exército Vermelho avançando, sua unidade deixou Auschwitz e foi enviada para a defesa de Breslau, hoje Wrocław. Jakob foi gravemente ferido, perdeu o olho direito e sofreu danos na audição. Depois da guerra, passou por campos de prisioneiros e foi condenado por um tribunal polonês em 1948 por sua atuação em Auschwitz.

Décadas mais tarde, a Justiça alemã voltou a examiná-lo. Em 2013, uma nova ofensiva judicial procurou antigos guardas do campo com base na ideia de que servir numa instalação criada para o assassinato podia constituir cumplicidade, mesmo sem prova de um homicídio individual. O caso contra Jakob foi encerrado em 2014 porque ele já havia sido julgado na Polônia e não podia ser punido novamente pelos mesmos fatos.

O encerramento processual não respondeu à pergunta moral. Jakob repetia que nunca atirou, nunca bateu e nunca matou. Dizia que deixava restos de pão para prisioneiros e que não se sentia criminoso. Contudo, também admitia ter cercado trens, guardado trabalhadores escravizados e vigiado um sistema cujo objetivo conhecia.

O aspecto raro de suas palavras não está no relato de um homem diante de um mistério. Está no testemunho de alguém que viu a máquina funcionar e, ainda assim, separou sua própria função do resultado final. A torre não era apenas um posto de observação. Era uma peça do mecanismo. E, em Auschwitz, cada peça ajudava a manter os portões fechados.

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