A Argentina não entrou cedo na guerra. Não enviou uma grande força expedicionária para a Europa. Não declarou guerra ao Eixo quando os Estados Unidos pressionaram. Não rompeu imediatamente com Alemanha, Itália e Japão quando boa parte do continente americano passou a se alinhar aos Aliados. Durante quase todo o conflito, permaneceu oficialmente neutra.
E é exatamente aí que começa a ferida.
A neutralidade argentina na Segunda Guerra Mundial não foi um detalhe burocrático. Foi uma das decisões políticas mais controversas das Américas naquele período. Para alguns, foi uma defesa legítima da soberania nacional diante de pressões externas, especialmente dos Estados Unidos. Para outros, foi uma hesitação perigosa, atravessada por simpatias autoritárias, interesses econômicos, redes de espionagem e setores militares fascinados pelo fascismo europeu.
A verdade histórica é mais desconfortável do que qualquer versão simples.
Em 4 de setembro de 1939, poucos dias depois da invasão alemã da Polônia e da entrada de Reino Unido e França na guerra, o governo argentino declarou neutralidade. Essa posição não surgiu do nada. A Argentina tinha uma longa tradição de neutralidade em conflitos europeus e mantinha fortes relações comerciais com a Europa, especialmente com o Reino Unido. A economia argentina dependia da exportação de carne, grãos e outros produtos agrícolas, e o mercado britânico era vital para Buenos Aires. Estudos sobre a política argentina no período destacam que a neutralidade era vista por parte da elite como forma de preservar comércio, autonomia diplomática e estabilidade interna.
Mas o mundo de 1939 não era o mesmo de 1914. A guerra total transformava tudo. Navios eram afundados no Atlântico. Redes diplomáticas viravam instrumentos de espionagem. Empresas, bancos, rádios, clubes de imigrantes e jornais podiam se tornar peças de influência política. Na América Latina, a disputa não era apenas militar: era também ideológica.
A Argentina era um país dividido.
Havia setores pró-Aliados, liberais, socialistas, radicais e grupos ligados à comunidade judaica, que viam o nazismo como ameaça direta à civilização. Havia também nacionalistas católicos, oficiais do Exército, simpatizantes do fascismo italiano, germanófilos e grupos que rejeitavam a influência britânica e norte-americana. Buenos Aires era cosmopolita, rica, intensa, politizada. Nas ruas, cafés, sindicatos, embaixadas, quartéis e redações, a guerra europeia era discutida como se pudesse mudar o destino do país — porque podia.
O episódio do Graf Spee, em dezembro de 1939, mostrou isso de forma clara. O encouraçado alemão, danificado na Batalha do Rio da Prata contra navios britânicos, refugiou-se em Montevidéu, no Uruguai, e depois foi afundado por sua própria tripulação. Embora o episódio tenha ocorrido do lado uruguaio do estuário, ele colocou a guerra diante da Argentina. Não era mais apenas uma notícia distante da Europa. Era o Atlântico Sul, o Rio da Prata, a vizinhança imediata, os portos, os consulados, os navios e a diplomacia regional sob tensão.
Ainda assim, Buenos Aires manteve a neutralidade.
Depois do ataque japonês a Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941, a pressão dos Estados Unidos aumentou. Washington queria consolidar a defesa hemisférica e isolar o Eixo no continente. A maioria dos países latino-americanos rompeu relações com Alemanha, Itália e Japão ou caminhou nessa direção. A Argentina resistiu. Essa resistência irritou profundamente o secretário de Estado norte-americano Cordell Hull, que via Buenos Aires como foco de obstrução à política continental dos Aliados.
Mas a posição argentina não era apenas uma questão de simpatia ideológica. Também era cálculo geopolítico.
O Reino Unido, por exemplo, tinha uma relação ambígua com a neutralidade argentina. Londres precisava dos alimentos argentinos. A carne e os produtos agrícolas tinham importância para o abastecimento britânico. Por isso, enquanto Washington pressionava por uma linha dura contra Buenos Aires, setores britânicos tendiam a ser mais cautelosos. A neutralidade argentina, do ponto de vista britânico, podia ser incômoda politicamente, mas útil economicamente. Essa diferença entre os Aliados ajuda a explicar por que a questão argentina se tornou tão complexa.
Dentro da Argentina, a situação ficou ainda mais delicada com o golpe militar de 4 de junho de 1943, que derrubou o presidente Ramón Castillo. A chamada Revolução de 43 abriu caminho para uma nova etapa de instabilidade e disputas no poder. Entre os militares influentes estava Juan Domingo Perón, que ainda não era presidente, mas crescia dentro do governo. O nacionalismo militar, a desconfiança dos Estados Unidos e a rejeição ao liberalismo tradicional deram ao novo regime um perfil que aumentou as suspeitas internacionais.
A Argentina finalmente rompeu relações diplomáticas com o Eixo em 26 de janeiro de 1944. Mas ainda não declarou guerra. O gesto veio tarde e de modo cauteloso. Washington continuou desconfiando. O governo Farrell, que sucedeu Ramírez, enfrentou isolamento diplomático, e os Estados Unidos demoraram a reconhecer plenamente o regime argentino. Arquivos norte-americanos registram que a Argentina só declarou guerra ao Eixo em 27 de março de 1945, pouco mais de um mês antes da rendição alemã, e que os Estados Unidos reconheceram o novo governo argentino em 9 de abril de 1945.
Esse atraso alimentou a acusação que marcaria a memória histórica: a Argentina teria ficado neutra até quase o fim porque tinha simpatia pelo Eixo.
A acusação não é sem base, mas também não explica tudo.
Houve, sim, presença nazista organizada na Argentina antes e durante a guerra. Havia núcleos de propaganda, organizações alemãs, redes de influência e atividades de espionagem. Buenos Aires foi considerada um centro relevante para operações de informação e contatos do Eixo na América do Sul. Em 2025, a redescoberta de caixas com materiais nazistas no porão da Suprema Corte argentina reacendeu esse passado: segundo a Reuters, o material fazia parte de uma remessa de 1941 ligada à embaixada alemã em Tóquio, enviada pelo navio japonês Nan-a-Maru, e incluía propaganda e cadernos ligados ao Partido Nazista. As autoridades argentinas da época já haviam apreendido parte do conteúdo por temer que afetasse a neutralidade do país.
Mas também é verdade que a Argentina recebeu dezenas de milhares de judeus que fugiam da perseguição nazista. A mesma reportagem da Reuters lembra que, entre 1933 e 1954, cerca de 40 mil judeus entraram no país escapando da perseguição na Europa, segundo o Museu do Holocausto em Buenos Aires. A Argentina, portanto, não pode ser reduzida a uma caricatura simples de “país nazista”. Ela foi, ao mesmo tempo, abrigo de vítimas, espaço de propaganda do Eixo, território de disputas diplomáticas, refúgio posterior de criminosos de guerra e cenário de profundas divisões internas.
A dimensão humana dessa história aparece justamente nessa contradição.
Enquanto diplomatas negociavam, civis argentinos discutiam a guerra nas ruas e nos jornais. Imigrantes europeus acompanhavam notícias de parentes sob ocupação. Comunidades judaicas temiam a expansão do antissemitismo. Grupos nacionalistas denunciavam a pressão dos Estados Unidos como imperialismo. Empresas tentavam preservar negócios. Militares avaliavam cenários. Jovens argentinos, apesar da neutralidade oficial, serviram voluntariamente nas forças britânicas e canadenses. Registros históricos apontam que milhares de argentinos participaram das forças armadas britânicas, incluindo voluntários na RAF e na Royal Canadian Air Force.
Ou seja: o Estado argentino foi neutro, mas a sociedade argentina não foi indiferente.
Essa talvez seja a chave para entender o caso. A neutralidade não significava ausência de guerra. Significava guerra sem declaração formal. Guerra nos portos. Guerra nos gabinetes. Guerra nos jornais. Guerra na comunidade alemã. Guerra nas sinagogas. Guerra nos quartéis. Guerra no comércio exterior. Guerra na pressão dos Estados Unidos. Guerra na cautela britânica. Guerra no medo de perder soberania.
A Argentina só declarou guerra quando o desfecho já era praticamente inevitável. Em março de 1945, Berlim estava cercada, o poder nazista ruía, e o mundo do pós-guerra começava a ser desenhado. Para o governo argentino, permanecer isolado poderia custar caro. Declarar guerra naquele momento era menos uma decisão militar e mais uma tentativa de garantir lugar na ordem internacional que surgiria depois da derrota do Eixo.
Essa é a verdade incômoda: a neutralidade argentina foi, ao mesmo tempo, tradição diplomática, cálculo econômico, resistência à influência norte-americana, disputa interna de poder, ambiguidade moral e erro político de alto custo.
Não se trata de dizer que a Argentina combateu secretamente pelos nazistas. Isso seria falso. Também não se trata de inocentar todos os setores que simpatizaram com regimes autoritários europeus. Isso seria ingenuidade. O que a história mostra é algo mais difícil: um país dividido, tentando preservar autonomia em uma guerra que não permitia neutralidades limpas.
A Argentina quis ficar fora da guerra. Mas a guerra entrou na Argentina.
Entrou por documentos, navios, embaixadas, espiões, discursos, voluntários, refugiados, propaganda e pressões diplomáticas. Entrou pela porta dos quartéis e pelas conversas de café. Entrou na memória de famílias que fugiram do nazismo e na sombra dos criminosos que, depois de 1945, encontrariam abrigo no país.
No fim, a neutralidade argentina não foi silêncio. Foi ruído. Um ruído que ainda ecoa quando historiadores abrem arquivos, quando documentos reaparecem em porões, quando nomes como Eichmann e Mengele são lembrados, e quando se tenta responder à pergunta que atravessa décadas:
até que ponto a neutralidade é prudência — e a partir de que ponto ela se torna cumplicidade?
Referências consultadas
Este artigo foi construído com base em estudos sobre a neutralidade argentina na Segunda Guerra, arquivos diplomáticos norte-americanos, registros do National Archives dos Estados Unidos, análises econômicas sobre países neutros, reportagens históricas e materiais recentes sobre documentos nazistas encontrados na Argentina. Entre as fontes utilizadas estão A Historical View of Argentine Neutrality during World War II, Allied Relations and Negotiations With Argentina, National Archives, Reuters, Buenos Aires Times, além de estudos sobre política argentina, relações com Reino Unido e Estados Unidos, espionagem do Eixo e o período da Revolução de 43.
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