Franz Gockel tinha apenas 18 anos quando a guerra chegou diante de seus olhos como uma massa de aço, fogo e homens. Era 6 de junho de 1944. O lugar era Colleville-sur-Mer, na costa da Normandia. Para os Aliados, aquela faixa de areia receberia o nome que entraria para a história: Omaha Beach. Para Gockel e seus companheiros da 352ª Divisão alemã, era o posto de resistência 62, uma posição que deveria ser mantida a qualquer custo.
A ordem era clara. Não se falava em retirada. Não se discutia recuo. A missão era resistir, segurar a invasão e lutar até o último momento. Antes do desembarque, segundo Gockel, Erwin Rommel já havia visitado as tropas e alertado que aquelas praias eram ideais para uma operação aliada. As defesas foram reforçadas. Barreiras de madeira foram colocadas na areia. Algumas tinham minas Teller presas aos troncos. A expectativa alemã era de que, se o ataque viesse, viria com a maré alta.
Mas a guerra raramente obedece à expectativa de quem espera por ela.
Na manhã daquele 6 de junho, Gockel viu o horizonte desaparecer atrás de navios. Não era um barco, nem uma formação pequena. Era uma frota imensa, estendida por toda a linha do mar. Quando os canhões começaram a disparar, ele descreveu o avanço como uma muralha de fogo vindo em direção à praia. Antes mesmo que as primeiras embarcações chegassem à areia, a artilharia naval já golpeava as posições alemãs, destruindo obstáculos, abrindo caminho e tentando esmagar qualquer resistência.
Gockel contou que começou a rezar em voz alta. Eram orações rápidas, feitas não por bravura, mas por medo. A oração, naquele instante, era uma forma de não pensar no que vinha pela frente. O fogo dos navios era, para ele, o pior de tudo. Uma pressão contínua, brutal, avançando sobre homens que tinham poucas alternativas além de permanecer onde estavam.
Quando as embarcações de desembarque se aproximaram, veio a surpresa. Os Aliados avançavam com a maré baixa. Parte das barreiras foi destruída. Outras queimavam. Algumas ainda permaneciam de pé. As defesas preparadas pelos alemães não impediram a chegada de homens em grande número. Gockel lembraria depois que, em cada barco, havia mais soldados do que em toda a baía defendida por seu setor. Cada posto de resistência tinha cerca de 20 a 25 homens. Algumas embarcações despejavam dezenas. Outras, muito mais.
No início, a artilharia alemã conseguiu frear o ataque por duas ou três horas. Mas a escala do desembarque era avassaladora. Para Gockel, aqueles soldados que avançavam pela praia não eram rostos individuais. Eram o inimigo no sentido militar da palavra. Ele diria depois que não os conhecia, não tinha escolha sobre o que estava acontecendo e pensava apenas em sobreviver. O mesmo valia para os homens que vinham do mar. A guerra havia transformado desconhecidos em alvos.
Em determinado momento, uma grande embarcação parou diante de sua posição. Diferente das menores, que levavam poucos homens, aquela trazia cerca de 200 a 300 soldados. As saídas laterais se abriram. Os homens estavam concentrados, amontoados, prontos para desembarcar sob fogo. Um companheiro de Gockel, posicionado cerca de 50 metros à frente, rastejou até o bunker e gritou que eles estavam chegando. Era hora de se defender.
Foi o que fizeram.
À tarde, Gockel foi ferido na mão. Alguns dedos ficaram pendurados. Um companheiro viu o ferimento e disse que ele deveria se considerar sortudo. Aquilo era o que os soldados chamavam de “tiro para casa”, o ferimento que podia tirar um homem da linha de frente e talvez salvá-lo da morte. Gockel tentou voltar por pequenos caminhos, evitando a estrada principal. Mais tarde, soube que outros companheiros que tentaram escapar pela via principal morreram.
A história de Franz Gockel não transforma o soldado alemão em herói nem apaga o lado em que ele estava. Seu relato mostra outra dimensão daquele dia: a de um jovem de 18 anos preso a uma posição fortificada, cercado por ordens, medo, artilharia naval e uma invasão que mudaria o rumo da guerra na Europa.
O Dia D costuma ser lembrado pelo heroísmo dos soldados aliados que cruzaram o Canal da Mancha e enfrentaram Omaha Beach sob fogo devastador. Mas, do outro lado da praia, havia também homens jovens, treinados para obedecer, convencidos de que deveriam resistir e surpreendidos pela dimensão de uma operação que nenhum deles podia deter sozinho.
Franz Gockel sobreviveu. E seu testemunho permanece como uma janela incômoda para uma manhã em que o mar da Normandia trouxe não apenas tropas, mas uma das batalhas mais decisivas do século XX.
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