Anatoly Popov relata a tensão nos céus da Frente Oriental, descrevendo o ataque a um aeródromo alemão não camuflado e o erro de cálculo que quase custou a vida de sua tripulação.
A guerra no ar não perdoa a arrogância, nem do caçador, nem da caça. Nos céus da Frente Oriental, onde a Luftwaffe e a Força Aérea Vermelha travavam um duelo de atrito brutal, a sobrevivência dependia muitas vezes de uma fração de segundo ou de um único grau de inclinação nos profundores. Para o navegador Anatoly Pavlovich Popov, aquela missão específica ficaria gravada não apenas pela audácia do inimigo, mas pela violência física de sua própria carga bélica.
Popov ocupava sua posição na fuselagem do bombardeiro, uma gaiola de vidro e metal onde a geografia passava em preto e branco lá embaixo. O tempo no ar tinha uma elasticidade cruel; os minutos de espera pareciam horas, esticando os nervos da tripulação até o ponto de ruptura. Ele monitorava o ar e a terra, seus olhos varrendo a escuridão em busca de referências cartográficas, marcando a posição da aeronave com a precisão fria exigida de sua função.
A paisagem abaixo revelou subitamente uma cena que desafiava a lógica da sobrevivência em combate. Numa clareira situada a oeste do rio, Popov avistou algo que o fez piscar para garantir que não era uma alucinação provocada pela fadiga. Lá embaixo, repousavam mais de duas dezenas de bombardeiros bimotores prateados. O contraste era gritante: o metal polido das máquinas alemãs brilhava contra o fundo verde da clareira, completamente expostos. Não havia redes de camuflagem, nem tentativas de ocultação. Era uma demonstração de confiança suprema, uma declaração silenciosa de que os fascistas acreditavam ser intocáveis naquele setor.
Imediatamente, Popov marcou a localização do aeródromo inimigo em seu mapa de voo. A inteligência soviética precisava saber daquele ninho. Mas a passividade da cena durou pouco. Ao redor da clareira, a terra começou a cuspir fogo. Pequenas luzes alaranjadas piscavam no solo, enviando fagulhas mortais para o céu. Do ponto de vista de Popov, as explosões antiaéreas pareciam inofensivas à distância, mas logo se transformavam em nuvens negras de fumaça que engoliam o espaço ao redor da aeronave.

A aeronave soviética, uma besta de toneladas de metal e combustível, começou a ser jogada para cima e para baixo como se não pesasse mais que uma pluma. O som era aterrorizante. Popov ouvia batidas secas e ritmadas na fuselagem, como se um baterista invisível e furioso estivesse martelando a pele do avião. Eram os estilhaços da flak alemã buscando carne e motor. A cortina de fumaça negra atrás da formação tornava-se cada vez mais densa, uma parede sólida de explosões.
Foi nesse caos que a decisão tática de atacar cobrou seu preço. O bombardeiro estava baixo, a meros trezentos metros do solo, quando liberou sua carga. Popov soltou uma tonelada de explosivos sobre o alvo. A física da detonação nessa altitude é implacável. No momento em que as bombas encontraram o solo, uma força titânica atingiu a aeronave de baixo para cima.
A violência do impacto foi instantânea. O avião foi arremessado para as nuvens com uma ferocidade que superava qualquer turbulência natural. O piloto, lutando contra o manche que parecia ter vida própria, empurrou os controles bruscamente para tentar estabilizar a máquina e sair da camada de nuvens. Quando finalmente recuperaram a visibilidade, a paisagem havia mudado. A ponte ou o alvo que buscavam já não estava lá, ou havia ficado para trás rápido demais.
O grito do piloto cortou o intercomunicador, carregado de uma ansiedade palpável. Ele queria saber o que os havia atingido. Popov, ainda atordoado pelo solavanco, perscrutou as asas e os motores através do vidro. Não havia chamas, nem fumaça saindo dos motores, nem buracos visíveis na estrutura. A aeronave estava intacta, apesar da violência do golpe.
A ordem para retornar à base foi dada. Popov traçou o curso para o leste, as mãos talvez tremendo levemente sobre a carta de navegação. Foi apenas ao preencher o diário de bordo, registrando friamente a velocidade, a altura e o momento do bombardeio, que a realidade do ocorrido se cristalizou em sua mente. Eles não haviam sido atingidos por um projétil inimigo miraculoso. A onda de choque que quase os derrubou fora causada por suas próprias bombas. A instrução técnica era clara sobre os perigos de soltar aquele tipo de tonelagem a trezentos metros, mas no calor do momento, a adrenalina havia suplantado o manual. Popov compreendeu, no silêncio do retorno, que a própria fúria de seu ataque quase se tornara seu carrasco.

Essa missão ilustrava a natureza precária da vida nas unidades de bombardeio de longo alcance. Não eram apenas os caças noturnos ou a artilharia de solo que ameaçavam os aviadores soviéticos; era a própria mecânica da guerra, onde um erro de cálculo na altitude poderia ser tão letal quanto um ace da Luftwaffe. Para Popov e sua tripulação, aquela noite resultou em uma lição de física aprendida da maneira mais difícil possível, nos céus escuros e hostis da guerra.
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