Poeira contra mosquitos em Cassino: a guerra secreta travada depois das bombas

Quando os últimos combates cessaram em Monte Cassino, em maio de 1944, a paisagem parecia incapaz de produzir uma ameaça nova. A abadia estava devastada, a cidade reduzida a ruínas e as terras baixas cortadas por crateras, valas e canais. Durante meses, tropas de várias nacionalidades haviam disputado a passagem pela Linha Gustav. Mas, quando a artilharia diminuiu, outro inimigo começou a ocupar o terreno. Não usava uniforme, não defendia trincheiras e atacava sobretudo ao anoitecer.

Eram os mosquitos.

A história oficial do Departamento Médico do Exército dos Estados Unidos preservou uma imagem pouco conhecida da campanha italiana: aviões lançando uma nuvem de pó sobre as planícies infestadas da região de Cassino. O produto era o verde de Paris, um composto de cobre e arsênio empregado como larvicida. Espalhado sobre águas paradas, atingia as larvas antes que se transformassem em mosquitos adultos.

A operação revela uma dimensão da Segunda Guerra Mundial normalmente escondida pelas narrativas de tanques, bombardeiros e infantaria. O Exército não precisava apenas derrotar as forças alemãs. Precisava impedir que o território conquistado se transformasse em foco de malária capaz de retirar milhares de homens do serviço.

Cassino reunia condições perigosas. O vale havia sido deliberadamente inundado durante a defesa alemã. Rios, canais, crateras de bombas e terrenos encharcados formavam reservatórios de água. Com a chegada do calor, aquela geografia destruída favorecia a reprodução dos mosquitos transmissores. A vitória militar não encerrava o problema. Estradas, hospitais, depósitos e concentrações de tropas passavam a ocupar justamente as áreas recém-abertas ao avanço aliado.

O programa antimalárico do teatro mediterrânico estava sob a supervisão do coronel Stone, oficial de medicina preventiva, e era dirigido pelo coronel Andrews, do Sanitary Corps, também comandante do 2655th Malaria Control Detachment. A organização combinava ciência, engenharia e disciplina militar.

Primeiro chegavam as unidades de levantamento da malária. Cada uma funcionava como laboratório móvel, com um entomologista, um parasitologista e onze praças. Esses homens examinavam sangue, estudavam a incidência da doença entre a população local e procuravam criadouros. O objetivo não era espalhar inseticida ao acaso. Era descobrir onde o mosquito estava, qual era sua densidade e onde as larvas se desenvolviam.

Depois entravam as unidades de controle, geralmente chefiadas por um engenheiro sanitário e formadas por onze praças. Elas aplicavam larvicidas, drenavam pequenas áreas e eliminavam pontos de reprodução. Projetos maiores, como desviar cursos d’água ou abrir canais, ficavam com os engenheiros do Exército. Cada unidade deveria cuidar do próprio perímetro, enquanto equipes especializadas coordenavam intervenções regionais.

A preparação começara antes do verão. Entre 21 de fevereiro e 25 de março de 1944, o major Maxwell R. Brand, malariologista da Peninsular Base Section, dirigiu em Nápoles três cursos. Um treinou inspetores médicos, outro preparou técnicos de laboratório e o terceiro formou praças para os destacamentos de controle. Em abril, novo curso foi realizado em Caserta, principalmente para pessoal das forças aéreas. Em 20 de março, o plano geral foi enviado aos principais comandos.

Naquele momento, havia cinco unidades de levantamento e sete de controle. Reforços elevaram ambos os grupos a nove unidades durante a temporada. Elas foram distribuídas pela África do Norte, Córsega, Sardenha, Sicília e oeste da Itália. A região oriental era majoritariamente responsabilidade britânica, com exceção da área de Foggia, atendida pelo comando de serviço das forças aéreas.

Em Cassino, a ofensiva contra o mosquito ganhou escala industrial. Uma unidade mantinha uma instalação capaz de preparar entre oito e dez toneladas diárias de verde de Paris. Aviões operados por pessoal britânico e americano espalhavam o pó sobre as baixadas. Civis italianos, companhias italianas de serviço e destacamentos militares forneciam mão de obra. Materiais vinham da intendência, da engenharia e do setor de material bélico.

O DDT, então uma novidade, foi usado com cautela no início porque as quantidades eram limitadas. Seu emprego aumentou perto do meio do verão. Em 1944, ele ainda não havia substituído completamente os métodos anteriores. Em Cassino, tradição e inovação conviveram: drenagem, verde de Paris, redes, repelentes, roupas protetoras e Atabrina integravam uma mesma defesa.

Os resultados apareceram nos números. Em agosto de 1943, durante a campanha da Sicília, a taxa anualizada de malária havia alcançado 173 casos por mil militares. Em agosto de 1944, no teatro mediterrânico, caiu para 92 por mil, embora uma proporção maior de tropas estivesse estacionada em áreas de risco.

Essa é a história escondida na poeira lançada sobre Cassino. Depois que os soldados abriram caminho entre minas, metralhadoras e ruínas, médicos, entomologistas, engenheiros, pilotos e trabalhadores italianos enfrentaram a ameaça que permanecera nas águas. Não houve uma única batalha sanitária, mas milhares de pequenas ações, cada vala drenada, cada criadouro localizado, cada voo sobre a planície.

A guerra em Cassino não terminou quando as armas silenciaram. Por algum tempo, continuou no ar, na água e sob uma fina nuvem de pó.


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