Política de Apaziguamento: O Plano de Londres que Facilitou a Invasão Alemã

Em 30 de setembro de 1938, o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain desembarcou no aeródromo de Heston, em Londres, agitando um pedaço de papel. O documento, assinado por Adolf Hitler, prometia que a consulta mútua seria o método para resolver qualquer diferença entre as duas potências. Chamberlain acreditava ter garantido a “paz para o nosso tempo”. Na realidade, o que ocorreu em Munique foi o ato final de uma tragédia estratégica onde a intenção de evitar a carnificina da Grande Guerra pavimentou o caminho para um conflito ainda mais devastador.

A política de apaziguamento não nasceu da covardia pura, mas de uma leitura gélida, e tragicamente errada das capacidades militares e das intenções ideológicas do Estado nacional-socialista. A Grã-Bretanha e a França, exauridas pelo trauma de 1914-1918, operavam sob a lógica de que o sistema internacional poderia absorver as revisões territoriais alemãs se estas fossem conduzidas por vias diplomáticas. O erro fundamental foi tratar Adolf Hitler como um estadista tradicional que buscava o equilíbrio, quando sua meta era a hegemonia continental absoluta.

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O interior de uma fábrica alemã maciça operando a todo vapor, produzindo tanques e armamentos enquanto faíscas voam.

O rearmamento alemão, iniciado de forma clandestina e acelerado abertamente após 1935, colocou as democracias ocidentais em uma posição de vulnerabilidade material. Em 1936, quando Hitler remilitarizou a Renânia, a França possuía superioridade numérica, mas faltava-lhe vontade política e uma doutrina militar ofensiva. O Estado-Maior francês, engessado pela mentalidade defensiva da Linha Maginot, superestimou as forças alemãs, convencendo o gabinete civil de que qualquer intervenção exigiria uma mobilização geral que a economia e a sociedade não estavam prontas para sustentar.

Londres, por sua vez, via o Japão no Oriente e a Itália no Mediterrâneo como ameaças simultâneas. Para o Almirantado Britânico, uma guerra contra a Alemanha em 1938 seria um desastre logístico. A estratégia de “ganhar tempo” era o imperativo. Era necessário produzir caças Spitfire e Hurricane em massa, além de consolidar a rede de radares que mais tarde salvaria a ilha na Batalha da Grã-Bretanha. O sacrifício da Tchecoslováquia foi o preço calculado para esse adiamento.

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Engenheiros britânicos trabalham freneticamente na montagem de fuselagens de caças Spitfire para tentar recuperar o tempo perdido.

Os tchecos possuíam uma das forças armadas mais modernas da Europa e uma linha de fortificações nas montanhas dos Sudetos que rivalizava com as melhores do mundo. Ao forçar Praga a ceder essas regiões à Alemanha, a Grã-Bretanha e a França não apenas abandonaram um aliado, mas entregaram de bandeja ao Terceiro Reich as fábricas de armamentos Skoda e um sistema defensivo intransponível. Hitler não precisou disparar um único tiro para neutralizar 35 divisões tchecas bem equipadas, que poderiam ter flanqueado a Alemanha em caso de guerra.

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Soldados da Wehrmacht marcham pacificamente passando por formidáveis bunkers de concreto tchecos que foram entregues sem luta.

A dinâmica interna do regime nazista exigia movimento constante. Para Hitler, o Acordo de Munique foi uma frustração disfarçada de vitória. Ele desejava uma “pequena guerra” para testar sua nova Wehrmacht e consolidar seu poder interno contra os generais conservadores que temiam um conflito prematuro. A diplomacia de Chamberlain, embora visasse a paz, privou Hitler do seu triunfo militar imediato, mas entregou-lhe o coração estratégico da Europa central. O equilíbrio de poder deslocou-se violentamente para Berlim.

O cálculo de “ganhar tempo” revelou-se uma falácia quando analisamos o ritmo de produção industrial. Entre 1938 e 1939, a Alemanha aumentou sua produção bélica de forma exponencial, integrando os recursos tchecos e austríacos ao seu esforço de guerra. Enquanto as democracias ocidentais aumentavam sua capacidade em termos aritméticos, o Reich o fazia em termos geométricos. O tempo comprado em Munique serviu mais ao agressor do que aos defensores da ordem estabelecida.

Em março de 1939, a ocupação do restante da Tchecoslováquia — a Boêmia e a Morávia — destruiu a última ilusão de que as reivindicações de Hitler eram limitadas aos povos de língua alemã. Foi o colapso da política de apaziguamento. A diplomacia havia falhado porque não compreendeu que estava lidando com uma força revolucionária, e não com um ator racional dentro do sistema de Vestfália. A inevitabilidade da guerra tornou-se clara até para os mais fervorosos defensores da paz.

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Tanques alemães entram nas ruas de paralelepípedos de Praga sob um céu de inverno, marcando o fim da diplomacia.

A estratégia de contenção foi substituída por uma garantia apressada e quase impossível de cumprir à Polônia. O Reino Unido e a França comprometeram-se a defender Varsóvia, apesar de não terem meios militares para projetar poder no Leste Europeu. Essa decisão, embora moralmente necessária após o desastre de Munique, colocou o Ocidente em uma rota de colisão direta com a realidade geopolítica da Europa Oriental, agora dominada pelo pacto de conveniência entre Hitler e Stalin.

O Pacto Molotov-Ribbentrop, assinado em agosto de 1939, foi o golpe de misericórdia na segurança europeia. Ao neutralizar a União Soviética, Hitler removeu o último obstáculo para a invasão da Polônia. O apaziguamento, que pretendia evitar uma guerra em duas frentes para o Ocidente, acabou facilitando uma guerra em frente única para a Alemanha, permitindo que o Reich concentrasse todo o seu poder de fogo contra a Polônia e, posteriormente, contra a França.

Análises históricas sugerem que a tragédia da política de apaziguamento reside na desconexão entre os objetivos políticos e a realidade militar. Chamberlain e Daladier operavam em um mundo de normas e tratados; Hitler operava em um mundo de força bruta e espaço vital (Lebensraum). Quando as democracias finalmente decidiram lutar, em setembro de 1939, o fizeram nas piores condições possíveis, sem os aliados tchecos e com uma Alemanha muito mais robusta do que a de 1938.

A lição de Munique é a de que o tempo, na grande estratégia, não é uma variável neutra. Ele favorece quem o utiliza com maior agressividade e clareza de propósito. O desejo humano pela paz, por mais nobre que seja, torna-se uma arma nas mãos de quem não hesita em usar a guerra como instrumento de Estado. A falha em reconhecer a natureza do inimigo transformou uma tentativa de salvar a civilização em um convite para o seu quase extermínio.

 

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A artilharia dispara violentamente na fronteira polonesa ao amanhecer, sinalizando o colapso total da paz e o início da tragédia.

Os canhões de setembro de 1939 não foram apenas o início de uma nova guerra, mas o eco estrondoso do fracasso de uma diplomacia que preferiu a ilusão da segurança à dureza da preparação. A história não perdoa o vácuo de poder, nem a hesitação diante da tirania armada. O resultado, como sabemos, foi desastroso.


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Fonte:

  • HILLGRUBER, Andreas. Germany and the Two World Wars. Harvard University Press, 1981.
  • KERSHAW, Ian. Escolhas Fatais: Dez Decisões que Mudaram o Mundo. Companhia das Letras, 2008.
  • WATT, Donald Cameron. How War Came: The Immediate Origins of the Second World War. Pantheon, 1989.
  • TAYLOR, A.J.P. The Origins of the Second World War. Hamish Hamilton, 1961.
  • CHURCHILL, Winston. The Gathering Storm. Houghton Mifflin, 1948.

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