Setembro de 1944. Cercado por alemães e sem saída, um pracinha brasileiro encontra um esconderijo inusitado e vive momentos de pânico absoluto na Itália.
A guerra na Itália tem um cheiro que ninguém esquece. Não é só o cheiro forte de pólvora queimada ou o fedor de óleo dos tanques. É também o cheiro de terra revirada e o suor frio que molha a farda verde-oliva. Era setembro de 1944 e o frio começava a chegar na região de Pisa. Para os brasileiros, aqueles eram dias de teste. O General Zenóbio da Costa, um comandante duro e exigente, sabia que os chefes americanos estavam de olho na gente. Ele queria mostrar serviço, queria que o soldado brasileiro estivesse na linha de frente, nas missões mais difíceis.
Foi nesse clima tenso que a tropa, formada principalmente pelo 6º Regimento de Infantaria, tentou avançar mais do que devia. A manobra foi arriscada. O choque com os alemães foi brutal. Diante dos contra-ataques pesados do inimigo, a ordem foi “retrair”. No quartel, chamam isso de manobra tática. Na prática, no meio do tiroteio, é o famoso “dar no pé” para salvar a pele e se reorganizar lá atrás.
Nessa confusão de gritos e explosões, começou o drama pessoal do pracinha Segismundo. Ele estava em um grupo que, no dia anterior, tinha expulsado os alemães de uma casa velha e bombardeada. Parecia seguro, até a munição acabar e o inimigo voltar com raiva. O pau comeu solto. Quando a poeira baixou, Segismundo percebeu que estava sozinho. Seus colegas, mais espertos ou com mais sorte, já tinham recuado. Ele ficou para trás, atirando da janela, defendendo uma posição que já estava perdida.
Ao tentar fugir pelos fundos, o soldado travou. O caminho estava bloqueado por metralhadoras alemãs que não paravam de atirar. Segismundo começou a suar. Primeiro umas gotas, depois parecia uma bica, apesar do frio que fazia. Ele achou que ia morrer ali mesmo. No quarto, só tinha uma cama velha e um armário vazio. Sem pensar muito, ele entrou no móvel e segurou a porta por dentro com toda a força que tinha.
Foi por pouco. Segundos depois, ouviu passos pesados de botas no assoalho de madeira. Eram vozes grossas, falando alemão, e o barulho de armas pesadas sendo colocadas no chão da sala ao lado. Ali, no escuro e apertado, Segismundo conheceu o verdadeiro medo. Não o medo de combate, mas o pavor de ser descoberto como um rato na toca.

As horas não passavam. Agachado, com os joelhos dobrados, ele sentia dores horríveis nas pernas. Rezava baixinho, pedindo a Deus que os alemães não inventassem de abrir aquele armário. Por duas vezes, o perigo chegou perto. Soldados entraram no quarto, pararam e saíram. Segismundo parava até de respirar.
A noite caiu e as coisas se acalmaram um pouco. No quarto vizinho, os alemães comiam e conversavam, achando que estavam seguros. A dor nas pernas do brasileiro era insuportável. Ele sabia que, quando o sol nascesse, eles iriam revistar a casa toda. Era sair dali ou morrer. Num momento de coragem desesperada, ele abriu a porta do armário de uma vez, pulou para o quarto e se jogou pela janela aberta.
Deu de cara com um sentinela alemão. O gringo levou um susto tão grande que ficou parado vendo aquele vulto passar correndo. Isso salvou a vida de Segismundo. Ele correu como nunca. Esqueceu a dor nas pernas e voou baixo. Atrás dele, ouviu gritos e logo depois o barulho das metralhadoras. As balas passavam zunindo perto dele. Segismundo corria em ziguezague, pulando de um lado para o outro para não ser atingido, lembrando das histórias do Saci.

O som dos tiros foi ficando longe. Quando viu as primeiras casas onde estavam os brasileiros, ele não parou para conversar. Se jogou no chão, sem forças, e dormiu ali mesmo. Dormiu o dia todo para recuperar o que tinha perdido de vida naquele armário.
Depois que passou o susto, ao contar o caso para o tenente, Segismundo até brincou com a situação, rindo da própria desgraça como todo bom brasileiro. Mas ele fez uma promessa séria: quando voltar para o Brasil, vai ter um quarto só para ele, mas sem armário nenhum. Ele não quer ver um armário nem pintado de ouro.
Fonte: VIDAL, Paulo. Heróis Esquecidos. Edições GRD.
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