Sombras no Paraíso: A Noite de Terror do U-161 em Santa Lúcia

Em uma noite tranquila de março de 1942, o Capitão Albrecht Achilles guiou o U-161 para dentro de um porto iluminado e transformou o silêncio caribenho em um inferno de fogo e aço.

A brisa quente que soprava sobre o porto de Castries na noite de 9 de março de 1942 carregava o perfume adocicado da vegetação tropical de Santa Lúcia. Para os homens a bordo do RMS Lady Nelson, um navio a vapor canadense ancorado tranquilamente nas águas protegidas, a guerra parecia um conceito distante, uma manchete de jornal vinda da Europa congelada ou do Pacífico em chamas. As luzes da cidade brilhavam intensamente e refletiam na água escura como diamantes espalhados sobre veludo negro. Não havia blecaute. A negligência era um convite silencioso que não passaria despercebido por olhos predadores que observavam logo além da entrada do porto.

ss_lady_nelson Sombras no Paraíso: A Noite de Terror do U-161 em Santa Lúcia
Imagem original do navio Lady Nelson

Albrecht Achilles tinha apenas 28 anos, mas seus olhos possuíam a frieza de um veterano calejado. No comando do U-161, um submarino do Tipo IXC projetado para longas patrulhas oceânicas, o Kapitänleutnant observava a cena através de seus binóculos Zeiss no passadiço da torre de comando. O que ele via era inacreditável. O porto estava escancarado e iluminado como um palco de teatro. Ele sabia que a audácia era a única moeda que valia a pena gastar naquela guerra. Achilles ordenou que seus homens preparassem o submarino para uma manobra que desafiava a lógica militar convencional. Eles não atacariam de fora. Eles entrariam na “sala de estar” do inimigo.

O silêncio a bordo do U-161 era absoluto enquanto a proa cortava as ondas suavemente. Achilles manteve o submarino na superfície. Submergir em águas tão rasas e desconhecidas seria suicídio tático. Ele contava com a silhueta baixa do U-boat para se confundir com a escuridão do mar contra o fundo da costa. Os motores a diesel ronronavam em baixa rotação enquanto a embarcação de 76 metros deslizava para dentro da baía, passando perigosamente perto das baterias costeiras em Vigie Point. Nenhum alarme soou. Nenhum holofote varreu a água. A guarnição britânica dormia ou confiava cegamente na improbabilidade de um ataque tão insolente.

Dentro do porto, o Lady Nelson e o cargueiro britânico SS Umtata estavam parados, inertes e iluminados. Eram alvos perfeitos para a matilha de um lobo solitário. Achilles manobrou com precisão cirúrgica, posicionando o U-161 a menos de trezentos metros dos cascos de aço dos navios aliados. A tensão na torre de comando era elétrica. O cheiro de óleo diesel e maresia preenchia as narinas do comandante enquanto ele alinhava os visores de disparo. Ele não precisava de cálculos complexos de trigonometria naquela distância. Era uma execução à queima-roupa.

Às 22h50, a ordem foi dada. Dois torpedos deixaram os tubos de proa do U-161 com um silvo de ar comprimido, deixando um rastro efêmero de espuma na água negra.

O tempo pareceu dilatar-se nos segundos que se seguiram. A bordo do Lady Nelson, passageiros e tripulantes viviam seus últimos instantes de paz. Então o mundo acabou.

u161-santa-lucia-2 Sombras no Paraíso: A Noite de Terror do U-161 em Santa Lúcia
Imagem ilustrativa criada com inteligência artificial

A primeira explosão atingiu o Lady Nelson na popa. O estrondo foi ensurdecedor, uma martelada titânica que sacudiu cada rebite da estrutura. Uma coluna de água, fogo e destroços subiu aos céus, iluminando a noite com um clarão alaranjado aterrorizante. O navio adernou violentamente e o pânico tomou conta dos conveses. Homens gritavam ordens que ninguém ouvia e o som de metal retorcido competia com os lamentos dos feridos. Antes que o eco da primeira detonação se dissipasse, o segundo torpedo encontrou o Umtata. A explosão rasgou o casco do cargueiro, enviando toneladas de mercadorias e aço para o fundo do porto.

No passadiço do U-161, Achilles não perdeu tempo admirando sua obra de destruição. O porto agora estava acordado. O elemento surpresa havia se evaporado junto com a fumaça das explosões. Agora começava a parte mais perigosa da missão: a fuga.

O comandante alemão ordenou força total nos motores. O U-161 girou sobre seu próprio eixo, levantando uma onda de proa enquanto acelerava em direção à saída do porto. O caos em terra jogava a favor dos alemães. As luzes de busca começaram a varrer o céu freneticamente, buscando bombardeiros que não existiam, enquanto as baterias costeiras hesitavam, sem saber onde atirar sem atingir suas próprias embarcações ou a cidade.

O submarino cortou a água em direção ao mar aberto, passando novamente sob o nariz das defesas britânicas. Achilles olhou para trás uma última vez. As chamas do Lady Nelson e do Umtata pintavam o porto de vermelho, projetando sombras longas e dançantes sobre a água. Ele havia entrado como um fantasma e saía como tal, deixando para trás morte, destruição e a prova definitiva de que a guerra havia chegado ao paraíso tropical.

Vinte vidas foram perdidas a bordo do Lady Nelson. O Umtata, embora gravemente ferido, não afundou completamente graças à baixa profundidade, mas a mensagem havia sido entregue. A Operação Neuland trouxe a Batalha do Atlântico para as portas das Américas.

Albrecht Achilles e sua tripulação desapareceram na imensidão do Atlântico, protegidos pela noite que eles haviam usado como arma. Para os habitantes de Castries e os sobreviventes dos navios, a imagem daquelas explosões e a vulnerabilidade exposta naquela noite de março jamais seriam esquecidas. O U-161 provou que não existiam santuários seguros em uma guerra global. A ousadia de um único homem e sua máquina havia violado a santidade de um porto considerado intocável. A guerra naval não era feita apenas de grandes frotas em alto mar, mas de momentos de terror súbito onde a linha entre a vida e a morte era decidida pela audácia de um capitão e a negligência de uma defesa despreparada.

Fontes:

Kelshall, Gaylord T.M. The U-Boat War in the Caribbean. Naval Institute Press, 1994.

Blair, Clay. Hitler’s U-Boat War: The Hunters, 1939-1942. Random House, 1996.

Kriegstagebuch (Diário de Guerra) do U-161, entrada de 9 a 10 de março de 1942 (B.d.U. War Logs).

Arquivos do Naval History and Heritage Command, Washington D.C.


Descubra mais sobre Portal Segunda Guerra Brasil

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta