A Decisão de 1936: O Momento Exato em que Poderíamos ter Parado a Segunda Guerra sem um Tiro

Chegamos ao último artigo da série Os Porquês da Segunda Guerra. Foram 18 textos publicados diariamente. Espero, de verdade, que quem acompanhou tenha gostado. Agora, seguimos para os próximos temas.


O dia 1º de setembro de 1939 é frequentemente citado como o ponto de ruptura, o momento em que os tanques alemães cruzaram a fronteira polonesa e incendiaram o planeta. Mas a verdade é que a Segunda Guerra Mundial começou a ser escrita muito antes, nos corredores luxuosos de Versalhes em 1919 e nas capitais europeias que, durante duas décadas, preferiram o silêncio ao confronto. A pergunta que ecoa até hoje em salas de aula e gabinetes de estratégia é inquietante: dava para evitar? A resposta curta é sim. A resposta longa exige que olhemos para o tabuleiro de xadrez da época e entendamos como cada peça movida de forma errada pavimentou o caminho para o abismo.

Para entender por que o mundo pegou fogo, precisamos olhar para a cicatriz deixada pela Primeira Guerra. O Tratado de Versalhes não foi apenas um acordo de paz; foi uma humilhação desenhada para manter a Alemanha de joelhos. O problema de humilhar uma grande potência é que você cria um vácuo de orgulho que será preenchido por alguém radical. Hitler não inventou o ressentimento alemão; ele apenas o transformou em combustível político. A geopolítica nos ensina que, quando você impõe condições duras demais sem ter a disposição real de fiscalizá-las pela força, você cria o pior dos mundos: a revolta sem o controle.

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Cena urbana deprimente na Alemanha pós-Primeira Guerra, ilustrando o ressentimento e a crise social que alimentariam o futuro conflito.

A Sociedade das Nações, que deveria ser o árbitro global, nasceu sem dentes. Imagine um tribunal que dá sentenças, mas não tem polícia para cumpri-las. Foi exatamente isso que aconteceu quando o Japão invadiu a Manchúria ou quando a Itália de Mussolini atacou a Etiópia. O sistema de segurança coletiva falhou porque os grandes jogadores, como o Reino Unido e a França, estavam exaustos e traumatizados pelo horror das trincheiras de 1914. Eles queriam a paz a qualquer custo, mas o problema é que, na política internacional, quando um lado quer a paz a qualquer custo e o outro quer a expansão a qualquer custo, o agressor sempre dita as regras.

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Tropas mecanizadas avançando sobre terreno inóspito na África Oriental, demonstrando a disparidade tecnológica e a falha da segurança coletiva.

Aí entramos no conceito mais perigoso daquela década: o apaziguamento. Neville Chamberlain, o primeiro-ministro britânico, acreditava que poderia “domesticar” Hitler entregando fatias de território, como se estivesse alimentando um crocodilo na esperança de ser o último a ser comido. Na Conferência de Munique em 1938, a Tchecoslováquia foi sacrificada no altar de uma falsa estabilidade. Churchill, que na época era uma voz isolada, resumiu bem a situação ao dizer que escolheram a desonra para evitar a guerra, e acabariam tendo a desonra e a guerra. Ele estava certo. Cada recuo das democracias era lido por Berlim como um sinal de fraqueza, não de boa vontade.

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A entrada de tropas estrangeiras na região dos Sudetos, observada por civis locais com uma mistura de medo e resignação.

Houve momentos específicos em que a porta poderia ter sido fechada. Em 1936, quando Hitler remilitarizou a Renânia, ele estava blefando. Seus generais tinham ordens de recuar ao primeiro sinal de resistência francesa. A França, que tinha o exército mais poderoso da Europa na época, não moveu uma palha. Foi ali, naquele instante de paralisia, que a Segunda Guerra Mundial tornou-se quase inevitável. Hitler percebeu que as potências ocidentais não tinham estômago para a luta. A lição estratégica é clara: a dissuasão só funciona se o seu adversário acreditar que você vai realmente atirar.livro-300x168 A Decisão de 1936: O Momento Exato em que Poderíamos ter Parado a Segunda Guerra sem um Tiro

A economia também jogou contra a paz. A Crise de 1929 destruiu a classe média alemã e empurrou o povo para os extremos. Sem o colapso econômico, o Partido Nazista provavelmente teria continuado como um grupo irrelevante de agitadores de bar. A fome e o desemprego são os maiores recrutadores de tiranias. Quando o estômago está vazio, o discurso de ordem e glória nacional soa como música. O mundo falhou em entender que a estabilidade econômica de uma nação vizinha é, no fim das contas, um investimento na sua própria segurança.

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A miséria da Grande Depressão na Europa, com filas de desempregados servindo de cenário para a radicalização política.

Outro erro fatal foi o isolacionismo americano. Os Estados Unidos, a maior potência industrial do mundo, decidiram que os problemas da Europa não lhes diziam respeito. Ao se retirarem do tabuleiro, deixaram o campo livre para os jogadores mais agressivos. A ausência de um contrapeso americano permitiu que a Alemanha e a União Soviética — dois regimes totalitários que se odiavam — fizessem um pacto bizarro de não agressão em 1939. O Pacto Molotov-Ribbentrop foi o último prego no caixão da paz. Com as costas protegidas pelo acordo com Stalin, Hitler sentiu-se livre para invadir a Polônia.

Muitos argumentam que a ideologia nazista era inerentemente expansionista e que, portanto, a guerra aconteceria de qualquer jeito. É verdade que Hitler queria o “espaço vital”, mas a escala do conflito e o momento em que ele ocorreu foram decididos pela negligência externa. Se as democracias tivessem imposto limites claros em 1934, 1935 ou 1936, o regime nazista poderia ter colapsado internamente sob o peso de suas próprias contradições econômicas ou sofrido um golpe militar por generais que temiam uma guerra prematura.

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O aperto de mãos estratégico entre oficiais alemães e soviéticos sobre um mapa da Europa Oriental, selando o destino da Polônia.

A guerra não era um destino traçado pelas estrelas. Ela foi uma construção feita de tijolos de omissão. Cada vez que uma fronteira era violada e o mundo respondia com uma nota de repúdio em vez de uma divisão de infantaria, o conflito global ficava mais próximo. A história não se repete, mas ela rima. O maior aprendizado de 1939 é que a paz não é a ausência de conflito, mas a presença de uma ordem capaz de desencorajar a agressão antes que ela se torne incontrolável.

Olhando para trás, vemos que o mundo não foi pego de surpresa. Os sinais estavam lá, os livros foram escritos, os discursos foram feitos. O que faltou foi a coragem estratégica de agir quando o custo da ação era baixo. Esperaram até que o custo fosse a própria civilização. A Segunda Guerra poderia ter sido evitada se tivéssemos entendido que a liberdade exige uma vigilância que não tira férias e que a diplomacia, sem o suporte do poder real, é apenas uma conversa educada antes da tragédia.

A porta foi deixada aberta porque ninguém quis ter o trabalho de trancá-la quando ainda era dia. Quando a noite caiu, em setembro de 1939, já era tarde demais para procurar as chaves. O que se seguiu foi o maior erro de cálculo da história humana, um lembrete sangrento de que, na geopolítica, o vácuo de poder nunca permanece vazio por muito tempo. Ele é sempre preenchido por aqueles que têm menos escrúpulos e mais fome de domínio.


Afinal, você acredita que a firmeza militar em 1936 teria mudado o destino do século XX? O debate sobre os erros de cálculo do passado continua vivo no Portal Segunda Guerra Brasil. Participe!

Fonte:

  • KISSINGER, Henry. Diplomacia. Editora Bertrand Brasil, 2001. (Análise sobre o equilíbrio de poder e o fracasso do sistema de Versalhes).
  • HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos: O breve século XX (1914-1991). Companhia das Letras, 1995.
  • CHURCHILL, Winston. Memórias da Segunda Guerra Mundial. Editora Nova Fronteira, 2017.
  • PARKER, R.A.C. Chamberlain and Appeasement. Macmillan Education, 1993. (Estudo acadêmico sobre a política de apaziguamento britânica).

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