Chegamos ao último artigo da série Os Porquês da Segunda Guerra. Foram 18 textos publicados diariamente. Espero, de verdade, que quem acompanhou tenha gostado. Agora, seguimos para os próximos temas.
O dia 1º de setembro de 1939 é frequentemente citado como o ponto de ruptura, o momento em que os tanques alemães cruzaram a fronteira polonesa e incendiaram o planeta. Mas a verdade é que a Segunda Guerra Mundial começou a ser escrita muito antes, nos corredores luxuosos de Versalhes em 1919 e nas capitais europeias que, durante duas décadas, preferiram o silêncio ao confronto. A pergunta que ecoa até hoje em salas de aula e gabinetes de estratégia é inquietante: dava para evitar? A resposta curta é sim. A resposta longa exige que olhemos para o tabuleiro de xadrez da época e entendamos como cada peça movida de forma errada pavimentou o caminho para o abismo.
Para entender por que o mundo pegou fogo, precisamos olhar para a cicatriz deixada pela Primeira Guerra. O Tratado de Versalhes não foi apenas um acordo de paz; foi uma humilhação desenhada para manter a Alemanha de joelhos. O problema de humilhar uma grande potência é que você cria um vácuo de orgulho que será preenchido por alguém radical. Hitler não inventou o ressentimento alemão; ele apenas o transformou em combustível político. A geopolítica nos ensina que, quando você impõe condições duras demais sem ter a disposição real de fiscalizá-las pela força, você cria o pior dos mundos: a revolta sem o controle.

A Sociedade das Nações, que deveria ser o árbitro global, nasceu sem dentes. Imagine um tribunal que dá sentenças, mas não tem polícia para cumpri-las. Foi exatamente isso que aconteceu quando o Japão invadiu a Manchúria ou quando a Itália de Mussolini atacou a Etiópia. O sistema de segurança coletiva falhou porque os grandes jogadores, como o Reino Unido e a França, estavam exaustos e traumatizados pelo horror das trincheiras de 1914. Eles queriam a paz a qualquer custo, mas o problema é que, na política internacional, quando um lado quer a paz a qualquer custo e o outro quer a expansão a qualquer custo, o agressor sempre dita as regras.

Aí entramos no conceito mais perigoso daquela década: o apaziguamento. Neville Chamberlain, o primeiro-ministro britânico, acreditava que poderia “domesticar” Hitler entregando fatias de território, como se estivesse alimentando um crocodilo na esperança de ser o último a ser comido. Na Conferência de Munique em 1938, a Tchecoslováquia foi sacrificada no altar de uma falsa estabilidade. Churchill, que na época era uma voz isolada, resumiu bem a situação ao dizer que escolheram a desonra para evitar a guerra, e acabariam tendo a desonra e a guerra. Ele estava certo. Cada recuo das democracias era lido por Berlim como um sinal de fraqueza, não de boa vontade.

Houve momentos específicos em que a porta poderia ter sido fechada. Em 1936, quando Hitler remilitarizou a Renânia, ele estava blefando. Seus generais tinham ordens de recuar ao primeiro sinal de resistência francesa. A França, que tinha o exército mais poderoso da Europa na época, não moveu uma palha. Foi ali, naquele instante de paralisia, que a Segunda Guerra Mundial tornou-se quase inevitável. Hitler percebeu que as potências ocidentais não tinham estômago para a luta. A lição estratégica é clara: a dissuasão só funciona se o seu adversário acreditar que você vai realmente atirar.
A economia também jogou contra a paz. A Crise de 1929 destruiu a classe média alemã e empurrou o povo para os extremos. Sem o colapso econômico, o Partido Nazista provavelmente teria continuado como um grupo irrelevante de agitadores de bar. A fome e o desemprego são os maiores recrutadores de tiranias. Quando o estômago está vazio, o discurso de ordem e glória nacional soa como música. O mundo falhou em entender que a estabilidade econômica de uma nação vizinha é, no fim das contas, um investimento na sua própria segurança.

Outro erro fatal foi o isolacionismo americano. Os Estados Unidos, a maior potência industrial do mundo, decidiram que os problemas da Europa não lhes diziam respeito. Ao se retirarem do tabuleiro, deixaram o campo livre para os jogadores mais agressivos. A ausência de um contrapeso americano permitiu que a Alemanha e a União Soviética — dois regimes totalitários que se odiavam — fizessem um pacto bizarro de não agressão em 1939. O Pacto Molotov-Ribbentrop foi o último prego no caixão da paz. Com as costas protegidas pelo acordo com Stalin, Hitler sentiu-se livre para invadir a Polônia.
Muitos argumentam que a ideologia nazista era inerentemente expansionista e que, portanto, a guerra aconteceria de qualquer jeito. É verdade que Hitler queria o “espaço vital”, mas a escala do conflito e o momento em que ele ocorreu foram decididos pela negligência externa. Se as democracias tivessem imposto limites claros em 1934, 1935 ou 1936, o regime nazista poderia ter colapsado internamente sob o peso de suas próprias contradições econômicas ou sofrido um golpe militar por generais que temiam uma guerra prematura.

A guerra não era um destino traçado pelas estrelas. Ela foi uma construção feita de tijolos de omissão. Cada vez que uma fronteira era violada e o mundo respondia com uma nota de repúdio em vez de uma divisão de infantaria, o conflito global ficava mais próximo. A história não se repete, mas ela rima. O maior aprendizado de 1939 é que a paz não é a ausência de conflito, mas a presença de uma ordem capaz de desencorajar a agressão antes que ela se torne incontrolável.
Olhando para trás, vemos que o mundo não foi pego de surpresa. Os sinais estavam lá, os livros foram escritos, os discursos foram feitos. O que faltou foi a coragem estratégica de agir quando o custo da ação era baixo. Esperaram até que o custo fosse a própria civilização. A Segunda Guerra poderia ter sido evitada se tivéssemos entendido que a liberdade exige uma vigilância que não tira férias e que a diplomacia, sem o suporte do poder real, é apenas uma conversa educada antes da tragédia.
A porta foi deixada aberta porque ninguém quis ter o trabalho de trancá-la quando ainda era dia. Quando a noite caiu, em setembro de 1939, já era tarde demais para procurar as chaves. O que se seguiu foi o maior erro de cálculo da história humana, um lembrete sangrento de que, na geopolítica, o vácuo de poder nunca permanece vazio por muito tempo. Ele é sempre preenchido por aqueles que têm menos escrúpulos e mais fome de domínio.
Afinal, você acredita que a firmeza militar em 1936 teria mudado o destino do século XX? O debate sobre os erros de cálculo do passado continua vivo no Portal Segunda Guerra Brasil. Participe!
Fonte:
- KISSINGER, Henry. Diplomacia. Editora Bertrand Brasil, 2001. (Análise sobre o equilíbrio de poder e o fracasso do sistema de Versalhes).
- HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos: O breve século XX (1914-1991). Companhia das Letras, 1995.
- CHURCHILL, Winston. Memórias da Segunda Guerra Mundial. Editora Nova Fronteira, 2017.
- PARKER, R.A.C. Chamberlain and Appeasement. Macmillan Education, 1993. (Estudo acadêmico sobre a política de apaziguamento britânica).
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