Viktor Brack não era médico. Essa constatação, aparentemente simples, ajuda a compreender uma das engrenagens mais perturbadoras do Terceiro Reich. Ele não operava pacientes, não dirigia pesquisas clínicas e não vestia o jaleco que conferia aparência científica aos crimes nazistas. Seu instrumento era a administração. Entre formulários, cartas confidenciais, organogramas e ordens transmitidas em linguagem burocrática, Brack ajudou a converter a ideologia racial de Adolf Hitler em uma política organizada de assassinato e esterilização.
Nascido em 9 de novembro de 1904, em Haaren, Brack cresceu em uma família ligada à medicina. Estudou agricultura e economia em Munique, aderiu ao Partido Nazista e à SS em 1929 e aproximou-se de Philipp Bouhler, um dos antigos colaboradores de Hitler. Em 1932, passou a trabalhar na direção nacional do partido. Quando a Chancelaria do Führer foi estruturada em 1934, Brack assumiu funções cada vez mais importantes. Em 1936, já era chefe do Departamento II e substituto de Bouhler.
A Chancelaria do Führer não era um ministério comum. Funcionava próxima à pessoa de Hitler, recebendo petições, pedidos de clemência e assuntos considerados delicados. Foi nesse ambiente reservado que surgiu o programa mais tarde conhecido como Aktion T4. Em outubro de 1939, Hitler assinou uma autorização retroativa a 1º de setembro, primeiro dia da guerra contra a Polônia. O documento encarregava Bouhler e o médico Karl Brandt de ampliar a autoridade de médicos escolhidos para conceder uma suposta “morte misericordiosa” a pacientes considerados incuráveis.
A expressão escondia a realidade. Crianças e adultos com deficiências físicas ou intelectuais, pacientes psiquiátricos, idosos e pessoas classificadas como improdutivas passaram a ser avaliados por meio de questionários. Em muitos casos, os especialistas não examinavam as vítimas. Marcas feitas nos formulários podiam decidir quem seria transportado para Brandenburg, Grafeneck, Hartheim, Sonnenstein, Bernburg ou Hadamar.
Brack ocupou uma posição central na organização prática dessas mortes. Participou, em janeiro de 1940, de uma demonstração de assassinato por monóxido de carbono em Brandenburg. O método foi adotado nos seis centros. As vítimas chegavam em ônibus com janelas cobertas, eram levadas a câmaras disfarçadas de chuveiros e mortas com gás puro. Em seguida, funcionários produziam certidões falsas, inventavam causas de morte e enviavam urnas às famílias.
A novidade mais inquietante revelada pelos documentos é a forma como o crime se apresentava como rotina administrativa. Havia departamentos, empresas de fachada, médicos avaliadores, transportes programados e tabelas de produtividade. De janeiro de 1940 ao fim de agosto de 1941, 70.273 pacientes adultos foram mortos nas câmaras de gás da operação centralizada. Depois que Hitler determinou a interrupção formal dessa fase, as mortes continuaram em hospitais e instituições por injeções letais, medicamentos e privação de alimentos.
Brack também aparece no ponto em que a experiência da T4 se encontrou com o extermínio dos judeus europeus. Grande parte dos funcionários enviados aos centros da Operação Reinhard, na Polônia ocupada, havia trabalhado anteriormente no programa de eutanásia. Uma carta discutida em Nuremberg mostrou que Brack, seguindo instruções de Bouhler, colocou homens de sua organização à disposição de Odilo Globocnik, chefe da SS e da polícia no distrito de Lublin. Técnicas, pessoal e hábitos de segredo adquiridos na morte de pacientes foram transferidos para uma escala ainda maior.
A trajetória de Brack tornou-se igualmente visível nos projetos de esterilização. Em 28 de março de 1941, ele enviou a Heinrich Himmler um relatório sobre o uso de raios X para destruir a capacidade reprodutiva. O texto analisava como a exposição poderia ocorrer sem que a vítima percebesse imediatamente. Brack calculava que vinte instalações poderiam esterilizar milhares de pessoas por dia.
Em 23 de junho de 1942, a proposta ganhou uma dimensão explicitamente genocida. Brack sugeriu que dois a três milhões de judeus considerados aptos para o trabalho fossem preservados temporariamente e esterilizados. Aqueles incapazes de trabalhar já estavam destinados ao assassinato. Himmler determinou novos testes em prisioneiros, e experiências com raios X foram realizadas em Auschwitz por Horst Schumann. Homens e mulheres sofreram queimaduras, lesões permanentes e operações posteriores para verificar os efeitos da radiação.
No Tribunal dos Médicos, em Nuremberg, Brack tentou apresentar a eutanásia como medida humanitária e minimizar sua responsabilidade. O arquivo, porém, continha sua assinatura, suas cartas e o organograma que descrevia a estrutura do programa. O tribunal o condenou por crimes de guerra, crimes contra a humanidade e pertencimento à SS, considerada organização criminosa.
Viktor Brack foi enforcado na prisão de Landsberg em 2 de junho de 1948. Seu percurso mostra algo que por muito tempo permaneceu atrás das imagens mais conhecidas da Segunda Guerra Mundial. O assassinato em massa não dependeu apenas de fanáticos armados ou médicos dispostos a experimentar. Também precisou de administradores capazes de transformar seres humanos em números, encaminhamentos, capacidade de transporte e metas diárias.
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