“Se Você Soubesse Quantos Judeus Eu Matei”: A Confissão que Rompeu o Silêncio dos Finlandeses da Waffen-SS

No fim de novembro de 1944, o porto sueco de Gävle parecia oferecer a Tauno Aarni uma saída segura. A Finlândia acabara de romper com a Alemanha, os antigos companheiros de armas tornavam-se um embaraço político e Aarni apresentava-se como refugiado anticomunista. Durante uma conversa com um policial, porém, ele julgou reconhecer um homem disposto a compartilhar seus preconceitos. Então pronunciou a frase que atravessaria oito décadas: “Se você soubesse quantos judeus eu matei”.

Não foi uma confissão judicial. Aarni mudou sua versão repetidas vezes. Primeiro afirmou ter atirado em prisioneiros judeus, depois falou em soldados do Exército Vermelho mortos em legítima defesa, mencionou um golpe de misericórdia e, por fim, negou ter matado qualquer pessoa. O documento sueco, recuperado e analisado pelo historiador André Swanström, abriu uma fenda numa história nacional cuidadosamente protegida.

Entre 1941 e 1943, 1.408 finlandeses serviram voluntariamente na Waffen-SS. Muitos foram incorporados à Divisão Wiking, formação multinacional comandada por oficiais alemães e lançada contra a União Soviética na Operação Barbarossa. O caminho da divisão atravessou a Ucrânia, o Don e avançou em direção ao Cáucaso. Esse não era apenas um campo de batalha convencional. Era o território da guerra racial concebida pelo regime de Adolf Hitler.

A aproximação entre Helsinque e Berlim nascera do medo. Depois da invasão soviética de 30 de novembro de 1939 e da dura Guerra de Inverno, a Finlândia perdeu territórios para Moscou no tratado de março de 1940. Quando Hitler preparou o ataque ao antigo aliado soviético, dirigentes finlandeses viram na Alemanha uma força capaz de recuperar a Carélia e preservar a independência do país. Nesse ambiente, o batalhão voluntário tornou-se símbolo militar da cooperação.

Durante décadas, predominou a imagem de jovens patriotas, politicamente ingênuos, atraídos pela aventura e pela luta contra o comunismo. A pesquisa mais recente apresenta um quadro muito menos confortável. Os formulários de recrutamento mostram que aproximadamente 46 por cento dos voluntários declararam preferência por organizações hoje classificadas como fascistas. No primeiro dia de seleção, em 21 de abril de 1941, apareceram militantes de grupos nacional-socialistas, integrantes do Movimento Patriótico Popular e dois candidatos que registraram simplesmente a palavra “antissemita”.

Aarni pertencia a esse núcleo inicial. Embora não tivesse experiência de combate na Guerra de Inverno, foi enviado diretamente para uma unidade de reconhecimento da Wiking. Quando a invasão começou, em 22 de junho de 1941, centenas de finlandeses já estavam distribuídos entre companhias alemãs. Eles viram cidades devastadas, prisioneiros executados e comunidades judaicas submetidas a espancamentos, humilhações e fuzilamentos.

Em Zboriv, no oeste da Ucrânia, um relatório do Sonderkommando 4b registrou que 600 judeus foram mortos pela Waffen-SS em 4 de julho de 1941. Unidades da Divisão Wiking estiveram envolvidas na ação. Isso não prova que voluntários finlandeses participaram daquele massacre específico, mas demonstra o ambiente operacional em que serviam. Diários e depoimentos revelam que os crimes não eram acontecimentos invisíveis, escondidos atrás da linha de frente. Eram parte da paisagem da campanha.

O estudo publicado pelos Arquivos Nacionais da Finlândia em 2019 concluiu que os voluntários conheciam as atrocidades e que pelo menos alguns deles participaram de atos violentos contra judeus, civis e prisioneiros de guerra soviéticos. A documentação é fragmentária, muitas vezes escrita em linguagem evasiva, e numerosos cadernos foram destruídos. Ainda assim, os pesquisadores identificaram casos concretos e estimaram que finlandeses provavelmente estiveram envolvidos na morte deliberada de centenas de prisioneiros soviéticos.

Em 2025, Swanström foi além. Comparando fichas políticas, correspondência, diários e interrogatórios, ele concluiu que os finlandeses ligados a atrocidades provinham, em sua maioria, do grupo mais comprometido com o nacional-socialismo e o antissemitismo. Sua conclusão não transforma todos os 1.408 voluntários em criminosos. Alguns recusaram ordens ou condenaram o que presenciaram. O que ela destrói é a explicação confortável de que a ideologia jamais teve importância.

O caso de Aarni resume essa contradição. Ele disse sentir repulsa pelas brutalidades alemãs, mas carregava preconceitos antissemitas desde a juventude e participou voluntariamente, em 1944, de um curso de liderança da Juventude Hitlerista em Garmisch-Partenkirchen. Na Suécia, tornou-se cidadão, adotou o nome Teddy, abriu um estúdio fotográfico e construiu uma vida pública. A investigação não avançou. A vida civil cobriu o passado com a aparência tranquila de normalidade, enquanto os interrogatórios permaneciam guardados nos arquivos suecos.

A novidade que emerge desses arquivos não está em condenar uma nação inteira. Está em devolver responsabilidade a indivíduos que durante muito tempo desapareceram dentro de uma narrativa heroica. A Finlândia combateu a União Soviética por seus próprios objetivos, mas um grupo de seus cidadãos vestiu o uniforme da SS, jurou fidelidade a Hitler e marchou dentro de uma máquina de extermínio. O silêncio posterior não apagou os rastros. Apenas os deixou esperando por alguém disposto a lê-los.


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