Em junho de 1944, enquanto milhões de pessoas acompanhavam com ansiedade os rumos da Segunda Guerra Mundial, uma jovem britânica de apenas 20 anos ocupava um dos postos mais estratégicos de todo o esforço aliado. Seu nome não aparece entre os grandes comandantes nem nas páginas mais conhecidas da história militar. Ainda assim, ela testemunhou, de dentro de um complexo subterrâneo secreto, os preparativos da maior operação anfíbia já realizada.
Ela servia como integrante do Women’s Royal Naval Service, conhecido como WRNS, as famosas Wrens da Marinha Real Britânica. Seu local de trabalho era o Fort Southwick, um centro de comando subterrâneo localizado sob as colinas de Portsdown, nos arredores de Portsmouth, no sul da Inglaterra.
Foi dali que parte da coordenação da Operação Overlord, a invasão da Normandia, ocorreu nos dias que antecederam o Dia D.
Na primavera de 1944, algo estava claramente mudando. O movimento dentro do complexo aumentava diariamente. Oficiais da Marinha, militares do Exército Britânico, integrantes da Royal Air Force e militares norte-americanos passaram a circular pelos corredores do centro de comando. As escalas de trabalho foram ampliadas. Licenças foram canceladas. O sigilo tornou-se absoluto.
Do lado de fora, a paisagem refletia os preparativos para uma ofensiva sem precedentes. O porto de Portsmouth estava tomado por navios, embarcações de desembarque, transportes militares e embarcações de apoio. Estradas do sul da Inglaterra estavam repletas de caminhões, tanques e soldados aguardando ordens. Campos inteiros transformaram-se em acampamentos militares.
Na noite de 3 de junho de 1944, durante um turno de vigilância, começaram a chegar mensagens que indicavam movimentações incomuns de comboios navais. Um termo aparecia repetidamente nos sinais recebidos: “Far Shore”, expressão utilizada para designar secretamente a costa da Normandia.
Aquela jovem operadora percebeu rapidamente que algo histórico estava prestes a acontecer.
Ao longo das horas seguintes, o fluxo de mensagens aumentou. Pela análise dos sinais, tornou-se possível concluir que a tão aguardada abertura da Segunda Frente na Europa Ocidental estava marcada para 5 de junho. Entretanto, a meteorologia interferiu nos planos. O comandante supremo aliado, o general norte-americano Dwight D. Eisenhower, decidiu adiar a operação em 24 horas devido às condições climáticas adversas no Canal da Mancha.
No dia 4 de junho, em meio à tensão crescente, a jovem comemorou seu vigésimo aniversário com uma amiga em um restaurante na cidade de Fareham. Foi um breve momento de normalidade antes de uma das maiores operações militares da história.
Na noite de 5 para 6 de junho, ela não conseguiu dormir. Dos alojamentos era possível ouvir o rugido constante dos motores das aeronaves que atravessavam os céus rumo à França ocupada pelos alemães. Milhares de paraquedistas britânicos e norte-americanos estavam sendo lançados atrás das linhas inimigas.
Na manhã de 6 de junho de 1944, ao retornar ao trabalho, uma imagem chamou sua atenção. O porto de Portsmouth, dias antes completamente congestionado, estava praticamente vazio.
A frota havia partido.
Pouco depois, a BBC anunciou oficialmente que tropas aliadas haviam desembarcado na Normandia. O Dia D estava em andamento.
Durante as semanas seguintes, o trabalho no Fort Southwick tornou-se frenético. O centro de comando mantinha contato contínuo com a gigantesca frota de invasão. Novos códigos, novas designações e novos procedimentos passaram a fazer parte da rotina.
Enquanto isso, navios de guerra, cruzadores, encouraçados e embarcações mercantes continuavam cruzando o Canal da Mancha transportando homens, equipamentos e componentes dos famosos portos artificiais Mulberry, fundamentais para o abastecimento das forças aliadas na França.
Menos de um ano depois, em 8 de maio de 1945, chegava o Dia da Vitória na Europa. Entre as inúmeras mensagens transmitidas naquele momento histórico, uma ficou gravada em sua memória. O general Dwight D. Eisenhower destacou que, no futuro, muitos discutiriam quem havia contribuído mais para a vitória. Porém, aqueles que participaram da guerra sabiam a verdade.
A vitória só foi possível graças à cooperação entre milhões de pessoas.
Entre elas estava uma jovem operadora de sinais que, dos túneis secretos de Portsmouth, ajudou a acompanhar um dos momentos decisivos da Segunda Guerra Mundial.
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